André Goldfeder

Toda poesia

Como ler poesia contemporânea e canção

Fã de Caetano Veloso desde criança, quando escutava suas canções no aparelho de som da casa onde morava com a família, André Goldfeder logo percebeu que poema e canção se encaixavam perfeitamente. Da música caminhou para a literatura e acabou transformando esses interesses em projeto de vida. Estudou Ciências Sociais, fez mestrado e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada, na FFLCH/USP, e tornou-se pesquisador e ensaísta.

Também arrisca escrever seus próprios poemas, ainda sem publicar.“O que acontece é justamente descobrir que o poema está por toda a parte. Escrevi algumas peças de teatro,

Arquivo pessoal

e escrevo com um, dois, três pés totalmente na poesia. Começar a falar sobre a própria formação tem a ver com começar a escrever um poema: com duas, três palavras no papel, vemos que tudo o que aconteceu corre em múltiplos fluxos, não para de acontecer e acontece de outras maneiras o tempo todo, para a frente e para trás”, diz.

Seus poetas preferidos são Carlos Drummond de Andrade e Herberto Helder - “Para citar os de leitura compulsiva, que abro o livro sem perceber”, diz. Mas também se impacta com Paul Valéry e Wallace Stevens. “Onde começa e onde termina a poesia? Seria preciso acrescentar o teatro da escrita e a escrita teatral de Beckett; a cinepoesia de Godard; a música escrita para os olhos de Paul Klee, entre outros”, diz. Caetano continua tocando na sua casa, além de Tom Zé, Itamar Assumpção, Chico Buarque e Nelson Cavaquinho.

A ideia do curso “Toda poesia”, que começa em maio no Lugar de Ler, é reunir essas referências e bifurcar um pouco o sentido original da obra reunida, da completude de um percurso: “Pretensão totalizante que, vale lembrar, um poeta como Herberto Helder já coloca de cabeça para baixo, ao intitular muitas das compilações 'totais' de sua poesia com um título que aparece na capa como sinônimo ou variação do nome do próprio autor, infinitamente reescrito: Herberto Helder,  Ou o poema contínuo”, explica André. O seu curso também quer abrir uma outra vertente: o todo do poema é sempre múltiplo. "Poesia, aqui, é sentido, música, imagem, gesto, cena e os inumeráveis modos como isso tudo se reescreve, varia, se multiplica no interior de um mesmo poema. O poema como mini-obra-de-arte-total", diz.

E a canção? “A canção é – cito novamente Caetano – ’multiplicar por muitos mil’ cada ‘pé’, cada passo da dança da poesia. Fazer uma letra para uma melodia existente é uma coisa engraçada. Você fica escutando aquele corpo polimorfo e infantil (infância é, etimologicamente, o que não tem fala), à espreita, perseguindo aquilo, tentando escutar a alma – uma alma possível – daquilo, tentando dar corpo semântico àquilo. Mas sem castrar tudo o que a explosão vital do antes da fala tem de múltipla potência. A canção é esse encontro, a rigor impossível, entre letra, melodia e os outros ares da música. É abrir ainda mais a Caixa de Pandora do poema”, diz.

Lugar de Ler ∞

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