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"Este mundo tem coisas", Saramago alerta o leitor.

Avesso a categorizar a literatura, José Saramago acreditava no potencial leitor, não importando sua idade. Em A maior flor do mundo, seu único livro escrito especialmente para crianças,  a solidariedade e a generosidade estão representadas na atitude de um menino, que saiu de sua aldeia para fazer algo maior do que ele. Há  nessa história um espelhamento entre o personagem e seu criador, o que se percebe no modo como se dirige ao leitor. Saramago parecia não se sentir à altura daqueles que, para ele, são as pessoas mais atentas às coisas do mundo. Talvez por isso, tanto nas crônicas quanto nas memórias do escritor português, podemos perceber camadas de leitura que também dialogam com o público infantil. As crianças sempre prontas a se aventurar e transformar as tramas que as convocam. Eram essas as qualidades que José Saramago esperava de todos os seus leitores. Para falar sobre os seus livros, agora ilustrados e  publicados recentemente pela Companhia das Letrinhas, entrevistamos o editor Antônio Castro.

por Dani Gutfreund e Tania Lopes

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Em 2001, a Companhia das Letrinhas lançou A maior flor do mundo, texto de José Saramago, com ilustrações de João Caetano. É o único texto intencionalmente escrito para o público infantil. O segundo livro para esse público, O silêncio da água, teve sua 1a. edição publicada em 2010, com ilustrações de Manuel Estrada. O lagarto, foi publicado em 2016, seguido agora por Uma luz inesperada, com ilustrações de Armando Fonseca e uma nova edição de O silêncio da água, ilustrado por Yolanda Mosquera, obras essas recuperadas das crônicas e de memórias autobiográficas. Como surgiu a iniciativa de direcionar essas obras às crianças?
A iniciativa veio, na verdade, da própria Fundação José Saramago, que trabalha com afinco na preservação e divulgação da obra do autor. A volta de sua obra para o público infantil mostra, a meu ver, a potência de um texto que é realmente universal e “se traduz” para a criança com a mesma facilidade que se faz ao adulto. Além disso, o leitor jovem que tem a oportunidade de entrar em contato com a literatura de Saramago com certeza vai nutrir o gosto por sua escrita e, no futuro, terá vontade de se debruçar sobre sua obra.

Em relação ao processo de edição, quais foram os critérios para a escolha dos textos a serem publicados e dos ilustradores? Existiam outras edições antes dessas ou elas são um projeto da própria Companhia das Letrinhas?  
A escolha dos textos e dos ilustradores também ficaram a cargo da Fundação. Nós, durante a edição dos livros, tomamos o cuidado para produzi-los com a qualidade gráfica que merecem. Um questionamento que fizemos, com relação ao texto, é se manteríamos a grafia portuguesa ou brasileira no registro. Acabamos optando pela portuguesa, para ficar tal qual Saramago escreveu, e por isso a nota ao leitor ao início de cada edição.
Os projetos gráficos foram pensados pelos ilustradores?
Sim.

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Há algum projeto em andamento para a publicação de mais textos de José Saramago voltados para a infância? Se sim, pode contar quais textos são?
Por enquanto não temos outra publicação em vista.


As ilustrações trazem um olhar particular para as crônicas, ao mesmo tempo em que abrem novas possibilidades de entrada no texto e suas camadas interpretativas. Como você vê a adaptação dos textos do Saramago em livros ilustrados?
Fiquei pensando bastante nessa pergunta, acho que ela abre muitos caminhos bacanas. Primeiro, porque ilustrar qualquer texto é um desafio enorme, mesmo aquele que foi pensado desde início para uma criança — o que se cria na narrativa visual é algo completamente novo, que muitas vezes (talvez, no melhor dos casos) foge a quem escreveu o texto. Quando se trata de um texto como a crônica, e ainda por cima de um escritor clássico, o desafio aumenta ainda mais. Não à toa, os textos escolhidos estão voltados para episódios da infância de Saramago, e acho que ambos os ilustradores fizeram um trabalho excelente nas ilustrações que são figurativas mas também encontram significado nos detalhes, no vazio. Em O silêncio da água, por exemplo, temos duas duplas com ilustrações sem texto ao início, um convite ao leitor para se ambientar ao texto antes mesmo de ele começar.

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Uma coisa que chama a atenção é que, embora não tenha sido originalmente pensado para as crianças, O silêncio das águas coube perfeitamente no universo infantil, assim como O lagarto. A voz do Saramago criança parece ter sido importada por ele, já adulto, como se mergulhasse em sua infância e fosse embebido dela. Já em Uma luz inesperada, vê-se um texto mais denso, que beira a abstração em várias instâncias e, assim, se torna mais hermético para uma criança – curiosamente, as ilustras parecem corresponder a essa sensação nos dois últimos livros lançados.  O que você acha disso? Pode falar um pouco de suas impressões sobre isso?
Concordo bastante. A meu ver, tanto em O silêncio da água quanto em O lagarto temos textos que beiram o fantástico, o onírico, e é mais fácil transportá-los ao universo infantil. Já em Uma luz inesperada há claramente a presença de um escritor lembrando o passado, interpretando-o, refletindo sobre ele. Essas reflexões, acho, vão ser entendidas de maneiras diferentes por adultos e por crianças. Para o adulto, fica claro um ideal de infância, um momento que Saramago enxerga não apenas como formador, mas basilar para a vida que vem depois. Para a criança, bom, acho que cada uma vai tirar dali algo diferente, o que também guarda certa magia.

 


É curioso pensar que no único livro que escreve deliberadamente para crianças, A maior flor do mundo, Saramago diz que não sabe escrever para elas e as convoca a mostrar-lhe como fazê-lo. Não apenas ao final do livro, mas enquanto dialoga com seu leitor ao longo da história. Seus quatro livros ilustrados parecem aquilo que chamamos de livros sem idade, porque, de fato, falam com seu leitor, independentemente da idade que tenham. Você poderia falar sobre isso?
Sim! Concordo completamente, são mesmo livros sem idade. Como comentei há pouco, a criança e o adulto vão tirar coisas diferentes do texto, e essa é uma das potências desses livros ilustrados.

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Ao escrever As pequenas memórias, José Saramago tinha como objetivo reconstituir o menino que havia sido. Em muitas entrevistas sobre esse livro, o autor afirma que “só as infâncias são únicas” e que aquele menino foi seu arquiteto. Como você vê o menino Saramago em O silêncio da água?
Acho que o menino de O silêncio da água e o de Uma luz inesperada demonstram, nas pequenas coisas, o que Saramago iria se tornar quando adulto: na curiosidade, no olhar para a natureza e no enfrentamento do mistério. Não à toa ele diz que o mito do paraíso perdido é a infância, como se, apenas nesse momento, fôssemos de fato inteiros.

 

 

Saramago não considerava ruim uma criança ler um livro sem entendê-lo plenamente. Certamente ela compreenderia numa segunda leitura e assim se formaria leitor. O esforço de ler seria o mais recompensador. Nesse sentido, o que você pode dizer sobre a linguagem e o esforço de leitura de Uma luz inesperada e O silêncio da água?  Você acha que se destinam a crianças com diferentes habilidades leitoras, àquelas que leem apenas com mediação e às que leem de forma autônoma? Pode falar um pouco sobre isso?
É sempre desafiador pensar em faixas etárias para livros infantis. Cada criança é única, e quando pensamos em nosso país, tão vasto e desigual, essas diferenças se acentuam muito, ainda mais considerando a formação escolar. Nesse sentido, acho que os livros são uma ótima oportunidade para toda criança que está começando a ler sozinha e a encarar os primeiros livros do começo ao fim, mas tem muito potencial para, com um adulto mediando, ganhar ainda mais força.

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Em sua trajetória como escritor, José Saramago valorizou o ato de indagar e de “estar sempre atento às coisas do mundo”, pois todo ele “é uma interrogação”.  Isso era algo que queria dar a ver a seus leitores, a possibilidade de experimentar esse modo de estar no mundo peculiar à infância.  Quando pensamos nas crianças, leitores que, como nós todos, estão em formação - e transformação - constante e intensa, o que acha que ele diria sobre o que escondem essas suas palavras agora em relação com imagens de ilustradores-leitores?
Vou ser sincero ao dizer que não sei o que ele falaria, mas acredito que os livros ilustrados têm um poder transformador sobre os leitores e vão ao encontro do que ele acreditava para a literatura e a infância.

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José Saramago defendeu a bondade como o argumento maior para modificar o mundo. Você acha possível observar essa virtude nos textos escolhidos para o público infantil? Acredita que a literatura pode formar pessoas mais solidárias?
Acredito muito no poder transformador da literatura, e sua relevância individual e coletiva é uma das coisas mais bacanas quando penso na edição de livros. Nestes livros do Saramago, para além da bondade, vejo uma presença clara do que é ser criança: a inocência e ingenuidade misturadas a curiosidade e imaginação. A bondade está ali presente, sim, no fundo e oculto, e talvez isso deixe os livros ainda mais bonitos — me lembrei até de Antonio Candido, que ao falar do ofício do crítico literário diz que a tarefa é “explicar o aparente pelo oculto”; talvez seja esse o exercício que nos cabe enquanto leitores de Saramago.

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