Camila Targino Queroz

Sala de roteiro: como nascem as séries

Camila gosta de dizer que nasceu à meia-noite. Para ela, isso adiciona um "quê" de mistério à sua história. E para quem a escuta, esse detalhe já revela sua vocação por tramas e dramas, reais e ficcionais.

Filha de pai mineiro e mãe cearense, com ascendência italiana, Camila sempre gostou de ouvir e de contar histórias: “É algo natural para mim, tem relação com a maneira como enxergo o mundo. Minhas brincadeiras sempre envolviam teatro, música, imaginação”. Muito disso, ela atribui à sua família, que ama cultura, em especial a brasileira, e sempre manteve a casa cheia de livros e música. Cresceu amando histórias, autores e tornou-se uma leitora voraz. Para completar, Camila era fã dos causos e das cantorias da avó. “Povoavam o meu imaginário

Arquivo pessoal

com personagens multifacetados, profundos, alegres”, diz. Todas essas referências davam pistas de que ela estaria sempre envolvida com os mundos da cultura, arte, infância e juventude. Só não sabia exatamente como isso aconteceria de fato.

Chegou a atuar como contadora de histórias em um hospital pediátrico - o mesmo onde nasceu à meia-noite, a Santa Casa de São Paulo e, apesar de ter achado uma experiência muito marcante, que reafirmou para ela o poder das histórias, ainda não via isso como uma profissão: “Quando era adolescente pensava em estudar Direito porque era sensível às desigualdades sociais. Tinha a ideia de que a lei poderia colaborar nas transformações sociais que eu julgava necessárias”, conta. Mas, enquanto se preparava para prestar vestibular percebeu que a Sociologia daria uma base mais adequada para suas intenções e propósitos. “Eu via a faculdade como um meio para embasar as minhas realizações e não como um fim. Como profissional, nunca imaginei que trabalharia com roteiros, por exemplo. As minhas escolhas de carreira foram e ainda são norteadas pelas minhas intenções, logo nunca quis ser isso ou aquilo… os porquês sempre falaram mais alto. Isso me dá grande liberdade e flexibilidade - sinto que posso fazer qualquer coisa, desde que alinhada com o meu propósito”, diz.

O universo do roteiro entrou no seu caminho em 2006 um pouco por acaso. Camila estava procurando emprego e mandou um e-mail para uma pequena produtora de conteúdo infantil, dizendo que era socióloga e que coordenava uma ONG de arte e animação para crianças e adolescentes. Mesmo sem nunca ter trabalhado com audiovisual, foi contratada.

“Mas não se iludam! Não ‘cheguei chegando’ como roteirista. Na verdade, nem considerava essa possibilidade. Lá, eu fazia de tudo: gestão de projetos, contratos, administração, café e, aos poucos, comecei a criar…”, diz.

A grande oportunidade de escrita veio quando um projeto que ela estava desenvolvendo ganhou um edital: “Não tínhamos quem escrevesse, porque o roteirista/sócio tinha saído da empresa. A verba era pequena para contratar alguém de fora, e eu amava o projeto, queria que acontecesse… lá fui eu escrever”, conta. Com o desafio, Camila sentiu que precisava preparar melhor sua formação na área. Fez oficinas de escrita, um curso breve de roteiro e procurou uma especialização. Foi quando se inscreveu para o curso de Argumento e Roteiro, na FAAP.

“No fim, deu mais do que certo… o projeto foi para outras mídias, ganhou um prêmio, teve proximidade com o público. Depois, outros projetos vieram e foi aí que a escrita e os roteiros se revelaram como uma possibilidade real para mim. Acho que mais do que escrever, sempre amei ficcionar. Dramatizar os acontecimentos, criar uma performance, fazer as pessoas rirem com meu jeito inusitado de narrar a vida. Sou muito grata pelo apoio que recebi nesse momento, pela confiança… a verdade é que eu tinha muito medo de colocar as minhas histórias no mundo. Aliás, nunca perdi esse medo, mas o desejo é maior, então vou em frente!”.

Entre os seus trabalhos como roteirista, Camila destaca sua participação nas duas primeiras temporadas da série de animação Sítio do Picapau Amarelo. “A Camilinha de sete anos que ainda mora em mim realizou um sonho!”, brinca. Também fala da Rádio​ ​Pipoca​ (APCA​ ​como Melhor​ ​Programa​ ​Infantil​ ​de​ ​Rádio,​ ​em​ ​2009​), da série Parque Patati Patatá, exibida no Discovery Kids, e do documentário Tragédia em Santa Maria, do canal Discovery, que ganhou a Medalha de Bronze no Festival de Nova York. Agora está na reta final dos roteiros de uma série infantojuvenil que vai estrear em 2019, sobre mitologia. “Eu amo esse tema! A personagem nasceu nos livros da Flávia Lins e Silva e virou animação”, conta.

Ao conhecer o Lugar de Ler como aluna no curso de escrita literária dado pela escritora Silvana Tavano, veio a ideia de dar aulas de roteiro, para adultos e adolescentes.

Enquanto isso, Camila também está desenvolvendo seu primeiro livro infantil e um projeto de série autoral.

Sua série preferida? “Gilmore Girls, com certeza. É minha série do coração, já assisti inteira várias vezes. Gosto do timing, do humor, da verossimilhança, das personagens coerentes e bem construídas, de como evolui ao longo das temporadas. Criada por uma mulher, com protagonistas femininas. Enfim, amo!”

Lugar de Ler ∞

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