Carolina Moreyra

Um olhar silencioso para o mundo

Carolina Moreyra sempre gostou de histórias. De ouvir, de ler e de inventar. Mas, segundo ela, foi sua experiência no cinema que realmente a ensinou a contar histórias. Formada pela London Film School, ela se aproximou da literatura mais tarde. Hoje, tem quatro livros publicados - O Guarda-chuva do Vovô (DCL), Lá e Aqui e Lulu e o Urso (ambos da Pequena Zahar) e ...e o que veio antes? (BabaYaga) - e desponta como uma autora prestigiada e premiada: já ganhou FNLIJ, White Ravens e Jabuti. Casada com Odilon Moraes, um dos ilustradores mais importantes no Brasil atualmente, tem três filhos, João, Francisco e Luísa, grandes inspirações para seus livros. É uma das criadoras do BabaYaga, um coletivo de produção literária independente. Aqui, ela conta um pouco da sua história, apesar de dizer que acha difícil falar de si mesma. "É mais fácil criar um personagem, uma história. Aí me sinto mais à vontade".

Arquivo pessoal

Lugar de Ler: Você tem formação em cinema pela London Film School. Conte mais sobre isso, quando foi e como foi o seu percurso até chegar à literatura .

Carolina: Fui uma criança quieta, tímida. Observava muito mais do que falava. Também gostava de histórias. De ouvir, de ler e de inventar. Acho que o cinema juntava as duas coisas, era a possibilidade de contar histórias sem precisar contar com as palavras, dava pra dizer através de gestos e olhares.

Então, depois de abandonar uma faculdade de Jornalismo e outra de Filosofia, achei que talvez pudesse estudar Cinema. Queria um curso técnico que me ensinasse a linguagem, o fazer, não a pensar sobre. Naquela época, ainda década de 1990, esse tipo de curso não era muito comum por aqui. Então pesquisei e acabei me deparando com a London Film School. Foi uma experiência incrível, três anos morando fora, conheci pessoas diferentes, de culturas diversas e aprendi muito.

Lugar de Ler: O que veio antes? Seus textos ou o cinema? Em que medida o cinema a influenciou como escritora de livros para crianças? Como as  duas atividades se alimentam ?

Carolina: O cinema me ensinou a contar histórias. Na escola, tínhamos que fazer um filme a cada três meses. Então, professores e alunos se juntavam no cinema para assistir e comentar os trabalhos. Éramos massacrados, todos os defeitos apontados. Mas eu aproveitei muito isso porque podia ver o que não tinha conseguido realizar, o que tinha ficado só na intenção. Os professores sempre repetiam: não importa a sua intenção, se não está no filme, não existe. Tudo tem que estar lá. E o lá não é dito diretamente, é construído com palavras e silêncios, com o cenário, a encenação dos atores, a fotografia e o enquadramento. Tudo se junta para contar uma história. É um trabalho em equipe.

Quando conheci o Odilon, conversávamos sobre as semelhanças entre essas duas linguagens, a do cinema e a do livro ilustrado. Acho que foi por aí que me aproximei desse universo. Depois veio a literatura.  

Lugar de Ler: Ainda trabalha com filmes? Se não, por que parou? Pela literatura?

Carolina: Não trabalho mais com filmes. O mundo do cinema e da TV exige de você uma dedicação de tempo, de disposição e de você mesmo que, quando tive filhos, se tornou incompatível comigo. Admiro muito quem tem essa força pra tocar um projeto no cinema. No livro, a gente levanta a criação na imaginação e no papel, com uma equipe reduzida. No cinema, a criação precisa ser levantada de verdade, com cenário, atores, figurino e muito dinheiro. Tenho me aproximado um pouco do texto para teatro. Em 2017 fizemos a adaptação do livro do Odilon, A Princesinha Medrosa, e foi uma experiência que gostei bastante e me ensinou muito. Já estamos levantando um novo projeto para 2019. Às vezes ainda penso: puxa, essa história daria um roteiro. Mas, então, imagino que poderia escrever em quadrinhos, que também é uma forma parecida de linguagem. Ainda não aconteceu, mas tenho vontade.

Lugar de Ler: Conte um pouco sobre o seu processo de criação.

Carolina: Acho sempre difícil falar sobre processo de criação porque, pra mim, ele é quase orgânico. Acho que o que eu faço é pensar muito sobre a linguagem, a maneira de contar uma história, a construção do texto, estudo muito, leio, penso, processo. Livros de teoria e de ficção, ilustrados ou não, filmes, programas de TV, séries, tudo conta alguma coisa. E também vou existindo. Observando as coisas, os outros, as situações, as crianças. Vou juntando uma coisa daqui com outra de lá. E de repente uma ideia surge, um sentimento fica um pouco maior, um olhar sobre alguma coisa começa a crescer. O meu trabalho é fazer isso caber em uma estrutura, em uma forma que dê um corpo e que possa fazer isso caminhar sozinho. Essa junção é algo misterioso, que acontece ou não.

Pra mim, a hora da escrita acaba sendo muito rápida. Mas antes existe todo um trabalho de amadurecimento. E uma hora sai, ou não, e aí a coisa se perde.

Lugar de Ler: Em seus livros, os silêncios e o branco são elementos narrativos fundamentais. As histórias são construídas em um jogo sincronizado entre palavra e imagem, assim como com o projeto gráfico, em que a pausa e o não dito são protagonistas na construção de significado. Você pode falar um pouco sobre isso?

Carolina: Esse contar sem dizer é o que me fascina no contar de uma história. É o desafio que me faz querer escrever. Como contar sem dizer? Como envolver o leitor de modo que aquilo de que estamos falando se apresente para ele e ele possa então, a partir das suas referências, das suas vivências, do seu lugar no mundo, preencher de significado.

O livro ilustrado permite desenvolver isso muito bem porque temos a palavra, a imagem e o objeto. Eu posso criar um contexto sem dizer uma única palavra. E, então, a palavra chega pra quebrar aquilo que parecia estar sendo dito.

Eu posso dizer com uma página em branco quando ela é um tempo em silêncio. Todos esses elementos em sequência só se juntam pelas mãos do leitor. O livro fechado é um objeto morto, parado no tempo. O leitor quando vira uma sequência de páginas, onde são dispostas diante dele imagens e palavras, junta tudo isso e cria sentido. Não precisamos dizer nada para o leitor. Só precisamos dispor diante dele as palavras e as imagens necessárias para contar aquela história.

Capas de Lá e Aqui e Lulu e o Urso, em parceria com Odilon Moraes.

Lugar de Ler: Muitos livros-álbum são frutos de uma forte parceria entre os autores, que podem ser um casal, amigos próximos ou parceiros de criação que têm muita “intimidade” e conexão intelectual e criativa. Você pode falar um pouco de sua experiência nas parcerias?

Carolina: O livro-álbum é um trabalho de equipe. Uma das coisas que eu mais estranhava nesse universo, quando conheci o Odilon, era que raramente o escritor e o ilustrador se encontravam. Era como se o roteirista e o diretor nunca conversassem antes de um filme. Ou o diretor e o diretor de arte. Não fazia nenhum sentido. Se os dois estavam contando a mesma história, como eles trabalhavam sem um diálogo entre eles? Ainda bem que isso aos poucos foi mudando. Acho a parceria uma das coisas mais gostosas do trabalho. Porque você escreve com certas visões e ideias na cabeça, e quando outra pessoa pega o trabalho e coloca a mão dela, inclui as suas ideias e visões. E isso expande o seu olhar sobre aquilo, porque aparecem elementos que você não tinha imaginado. Você se torna um pouco leitor e um pouco autor, porque a história não é mais sua, é do livro.

Na minha parceria com o Odilon, eu faço uma parte, ele faz outra, e depois tem todo um trabalho de afinar a junção das duas, que é feito coletivamente. Vamos cortar ou mudar uma palavra, colocar mais uma dupla para alargar o tempo ou tirar uma página para influenciar no ritmo. É um trabalho braçal que tem que ser feito junto e entre pessoas em sintonia porque precisam estar contando a mesma história. É uma parte de ajuste fino fundamental para o resultado final dos livros.

Lugar de Ler: Você aparece em todos os seus livros, seja mãe ou menina, num protagonismo tímido, às vezes silencioso. Conte um pouco sobre sua relação com seus livros e também a história de cada um deles.

Carolina: Uma vez, eu e o Odilon estávamos falando em uma escola e uma aluna perguntou o que a gente achava necessário para escrever, em termos de atributos e qualidades. E a gente divergiu na resposta. Ele disse: uma curiosidade e um interesse pela palavra, pela língua. Eu respondi: um olhar para o mundo. Acho que nós dois estávamos certos. Mas, pra mim, as histórias partem daquilo que me inspira, e o que me inspira não vem de uma racionalidade, mas de um estar no mundo, de um olhar para as coisas. Escrevo do ponto de vista desse sujeito observador que inevitavelmente acaba aparecendo. Esse olhar é tímido, silencioso, porque não é impositivo. Quero que o leitor se coloque ali, preencha os espaços com as suas referências.

Mas posso falar que todos os meus livros até agora partiram de alguma coisa concreta que me inspirou. O Guarda-chuva do Vovô surgiu quando meu avô morreu. Ele estava doente há algum tempo e não pude me despedir porque meu primeiro filho, João, tinha acabado de nascer. Uns dias depois, meu pai foi em casa, estava chovendo, e ele chegou com um guarda-chuva que não combinava nada com ele. Era o guarda-chuva do meu avô. Ele foi embora e o guarda-chuva ficou. E eu olhava para ele e pensava no meu avô. Meu avô era um homem difícil. Um homem com muitas qualidades, mas era um relacionamento que tinha as suas ausências. E a partir dessas dualidades, ausência-presença, avô-guarda-chuva, escrevi a história.

Lá e Aqui surgiu de uma briga com o Odilon em que eu imaginei como seria a separação pros meus filhos, mas depois percebi que tinha muito da minha vivência da separação dos meus pais.

Lulu e o Urso foi um momento com a minha filha Luísa, que fazia um monte de perguntas enquanto eu trabalhava superocupada no computador. E então parei pra pensar que tinham dois pontos de vista ali, coabitando aquela cena.

...e o que veio antes? fiz pro filho do meio, o Francisco, que queria entender o que veio antes. Ele me perguntava: a galinha veio do ovo e a galinha botou o ovo, mas qual foi a primeira galinha? Qual foi a primeira pessoa? O que veio antes?

Imagens do livro ...e o que veio antes?, publicado pelo coletivo BabaYaga (texto da Carolina e ilustrações de Marcia Misawa)

Lugar de Ler: Quais seus autores preferidos de livros ilustrados?

Carolina: Não posso deixar de falar nos clássicos: Sendack, Burningham, Browne, Tony Ross, Mckee. Falei só britânicos, né? Só o Sendack é norte-americano. Talvez porque os ingleses tenham muito essa coisa do não dito e também da narrativa.

Lugar de Ler: Como você vê seu leitor? E como seus livros, que tratam de questões da vida, sempre com muita delicadeza e afeto, são recebidos por eles?

Carolina: Existem dois leitores. Os que a gente projeta na hora de escrever o livro e que são seres fictícios, e os que a gente se depara por aí depois que o livro já existe, que são pessoas reais.

Enquanto escrevo sei que estou escrevendo para alguém, que o texto será reconstruído na cabeça desse outro, e quero que ele se aposse daquilo que está lendo, que torne o livro dele também. Sei que estou escrevendo livros infantis e que esse texto tem que ser acessível para uma criança. Então busco o lugar das primeiras experiências, do frescor, da curiosidade e perplexidade diante do mundo. Se vou falar de separação, vou falar dessa primeira experiência. Preciso construir isso, porque não é algo que necessariamente está dado. Começo construindo a união, essa família que está inteira e é formada por vários elementos. Depois que a união foi estabelecida, posso quebrar com ela e com a casa, que é a metáfora disso que era um, e que se divide em dois. Eu não uso a palavra separação em nenhum momento do livro. Tento construir os significados que podem ser nomeados depois pelo leitor, se fizerem sentido para ele.

Já os leitores reais são um mistério. Gosto muito quando me chamam para ler para as crianças. Me encanta ver a reação delas aos livros. Em uma escola, uma vez, fui ler o ...e o que veio antes?, e um menino falou pra mim: “Esse livro me deixou muito confuso. Não sabia que um livro podia deixar a gente assim. Posso ler mais uma vez?”. É nessa hora que a gente vê que fez a ponte com alguém, que aquilo mexeu com o outro e passou a fazer parte da sua vida. No fim, acho que é pra isso que fazemos livros.

Lugar de Ler: Como você vê a situação da literatura infantil no Brasil hoje em relação aos constantes episódios de censura aos livros, protagonizados principalmente pelos pais, que se opõem a determinados temas, personagens etc.?

Carolina: Acho que essas são questões que vivemos agora e que estão além do universo do livro. Estão na sociedade e na dificuldade de olhar o outro a partir do que temos em comum. Estamos muitas vezes olhando o outro a partir do que ele tem de diferente.

Mas, falando especificamente do livro, de certa forma podemos pensar que isso está na falta de leitura e na falta de entendimento do que é o livro e o próprio ato de ler. Quero dizer, na separação entre as várias vozes que estão ligadas no livro: autor, narrador, personagens e leitor. O livro é um jogo entre esses diferentes pontos de vista. O quanto o narrador vai falar pelo personagem e o quanto o personagem é diferente do narrador e se revela nas suas brechas pela própria voz. O quanto o autor está ali presente no jogo entre essas vozes. Não são leituras retas e fechadas. O leitor é sempre convidado a entrar no jogo e se colocar ali presente, com o seu próprio ponto de vista. Já vi gente adulta confundindo o que o personagem dizia com a opinião do autor, sem entender que existia uma coisa maior, a história que estava sendo contada.

Na literatura infantil, entramos na questão dos temas tabu, sem perceber que, às vezes, podemos afirmar nossos valores pela negação de outros. Se não concordamos com o ponto de vista apresentado em um livro sobre determinado tema, podemos usar esse livro como porta de entrada para falar com nossos filhos sobre esse assunto. Outro dia aconteceu uma coisa mais ou menos assim em casa. Chegou um livro que eu discordava completamente e comecei a conversar com a minha filha. Você concorda com o que aconteceu? Você acha que a menina estava certa ao resolver o problema assim? Tivemos uma ótima conversa sobre o assunto, que jamais teríamos tido se eu simplesmente tivesse jogado o livro aos leões.

Lugar de Ler: Essas polêmicas influenciam o seu processo de escrita? Você já chegou a se censurar enquanto escrevia, pensando que isso poderia incomodar pais ou professores, ou até mesmo as crianças?  

Carolina: Complementando a resposta anterior, acho que, por outro lado, nesse momento também temos uma outra coisa acontecendo, que é o espaço para pontos de vista que costumavam não aparecer, que não faziam parte do jogo e que agora se colocam. Tenho procurado escutar isso e vejo como minha maneira de ver já foi alterada, como muitas coisas ecoaram em mim, o que acho muito positivo.

Por outro lado, acho que procuro ter uma sinceridade na hora de escrever. Já falei sobre morte, separação de pais, mãe que trabalha. Se eu me censurasse, acho que não teria falado sobre nenhum desses temas.

Lugar de Ler: Existem projetos em andamento ou guardados? Você escreve também para jovens e adultos?

Carolina: Tenho alguns projetos novos de livros que espero que saiam em 2019. Há também uma peça de teatro, que estamos tentando viabilizar, e uma ideia de um livro juvenil, que já está comigo há algum tempo, porém ainda não sei se chegou a hora. E tenho muitos contos adultos na gaveta, que ainda não estão maduros. Mas os projetos são assim, alguns vingam, outros não.

BabaYaga

Alessandra Corá, Débora Barbieri, Marcia Misawa, Stella Elia e Carolina Moreyra

Da esquerda para a direita: Marcia, Stella, Débora, Carolina e Alessandra.

Lugar de Ler: Como surgiu o BabaYaga: o que é, quem criou, quem faz parte do projeto, objetivos, publicações.

BabaYaga: BabaYaga surgiu em 2016, como resultado de uma afinidade muito grande do grupo que se formou com o curso "Escrever para Crianças", do Peter O. Sagae. Já estávamos juntas há dois anos, produzindo textos, e percebemos que tínhamos um material com uma potencialidade que talvez não fosse aproveitada pelo mercado tradicional. Foi aí que tivemos a ideia de fazer essas produções via coletivo e nos inscrevemos na Feira Miolos. Atualmente fazem parte do coletivo Alessandra Corá, Débora Barbieri, Marcia Misawa, Stella Elia e Carolina Moreyra. Publicamos livros e zines de nossa autoria em baixíssimas tiragens, muitas vezes com acabamentos manuais, procurando viabilizar projetos que podem até parecer impossíveis. BabaYaga é um espaço de experimentação artística e é essa liberdade de criação que nos move. Também nos sentimos muito confortáveis em compartilhar os projetos umas com as outras, trocar ideias e opiniões, e isso vai amadurecendo nosso trabalho.

Lugar de Ler: “A literatura para crianças atualmente é o todo do livro, esse objeto-continente de palavras, imagens e materialidade. Mas que é também um continente-universo, onde exploramos livremente os ritmos, vínculos e infinitas leituras.” Assim, vocês definem como o coletivo vê a literatura para crianças. Falem sobre o desenvolvimento das ideias, dos projetos, de como se dá esse fazer coletivo?

BabaYaga: Vemos no coletivo uma maior liberdade na criação do livro porque podemos trabalhar com o lado mais artesanal dele. Como produzimos tiragens menores, podemos materializar no objeto a própria narrativa, fazendo com que o suporte também conte a história. É um trabalho feito com muita troca, todo o processo é feito pela gente, do começo da ideia até o livro chegar nas mãos do leitor. Passamos pela gráfica para fazer a impressão e, às vezes, o livro já sai pronto, mas na maioria das vezes ainda temos que cortar, dobrar, colar as partes ou, pelo menos, por no saquinho.
Somos cinco e nossas habilidades se completam. Dividimos o trabalho, cada uma fazendo o que pode, uma ajudando a outra. Somos todas mães e acostumadas a fazer cinquenta coisas ao mesmo tempo. Isso ajuda a entender os limites uma da outra e a trabalhar em grupo. Além de nós cinco, temos parceiros que participam de projetos específicos. São pessoas com quem temos afinidade de trabalho e que sentimos a vontade de convidar pra participar da brincadeira. Temos um ambiente virtual onde colocamos as novas ideias e todas contribuem com comentários e sugestões. Também fazemos nossos encontros, muitas vezes para ajudar na parte artesanal e trocar os estoques. A Marcia mora nos Estados Unidos, mas está sempre presente por Skype, WhatsApp etc. E tem as feiras, onde vendemos os livros, além da internet. Cada uma tem a liberdade para fazer o seu projeto, e conta com o apoio das outras. E assim vamos seguindo.

Lugar de Ler: Como surgiu cada livro - histórias, dificuldades, curiosidades?

BabaYaga: O primeiro livro a sair do forno - Quem vem lá? - mostra bem a nossa maneira de produzir. A ideia da Marcia era fazer um livro para bebês, que pudesse ser explorado, tocado, mexido. Assim, o projeto gráfico surgiu primeiro, depois vieram as ilustrações e só então a Alessandra fez o texto. O material foi para a gráfica, mas isso foi só o primeiro passo, porque ainda era preciso dobrar, colar, costurar, cortar. E tínhamos o prazo da data da Feira Miolos, nossa estreia. Fizemos uma produção em série ao redor da mesa, cada uma ocupada com uma parte do processo. E assim o livro saiu. Ele agora foi pra segunda tiragem e é o nosso maior sucesso nas feiras.
Outro livro que podemos falar também é o ...e o que veio antes?. É um texto bem simples e a graça vem muito do projeto gráfico. O texto começa no presente, com alguém sentando em uma cadeira, e vai voltando ao passado, cada vez mais longe, muito antes dessa pessoa ter nascido. A leitura segue então, proposta pelo objeto, ao contrário, começando no fim, no agora, e indo para o começo, do livro e dos tempos. Foi um projeto gráfico feito a muitas mãos, com a participação do Odilon, da Débora e da Marcia, que também fez as ilustrações. Além da capa, paramos pra pensar no ritmo da leitura, que era influenciado pela quantidade de texto que ia em cada página. Ajustamos isso para que a leitura seguisse mais lenta no começo, e acelerasse no final.
Nossa produção de texto também tem uma participação coletiva, por mais que cada uma tenha a sua autoria. Vamos comentando, comentando, comentando os textos até que uma hora sentimos que ficou redondo e que o processo está finalizado.

BabaYaga na Feira Miolos, que acontece na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.

Lugar de Ler: Como vocês vêm a publicação independente no Brasil? A publicação independente de livros para o público infantil tem o mesmo espaço que a de livros para leitores adultos? Como vocês chegam até as crianças? Vão às escolas? Promovem eventos e oficinas?

BabaYaga: A popularidade das publicações independentes tem crescido nos últimos anos e cada vez mais artistas têm se dedicado a esse mercado. É um espaço que se formou pela necessidade de se publicar livros como meios de expressão artística, fora das exigências mercadológicas da indústria do livro.
Os livros infantis têm sido muito bem acolhidos pelas feiras de publicações independentes e várias iniciativas têm surgido para tentar dar mais visibilidade a esse nicho, mas o que se tem percebido é que são muito poucos os profissionais que se dedicam à produção de livros de infância. As próprias escolas têm organizado suas feiras de publicações independentes e têm mostrado interesse em nosso trabalho. Pouco a pouco estamos oferecendo oficinas e leituras que tenham a ver com o que acreditamos que funcione na formação leitora. Sempre que podemos, visitamos escolas e participamos de eventos para nos aproximar das crianças, porque ao mesmo tempo que tentamos contribuir, recebemos um valioso retorno nesse contato direto com elas.

Lugar de Ler: Nos últimos tempos fala-se muito da crise editorial no Brasil. O que vocês acham disso? Como vocês veem sua atuação no mercado de literatura atual?

BabaYaga: BabaYaga é algo que levamos paralelamente às nossas carreiras no mercado editorial, por isso, a crise afeta financeiramente cada uma de nós e acaba impactando de certa forma na produção do coletivo. Afinal, cada projeto é feito a partir de recursos próprios, ou seja, mexe no bolso de cada autora. Mas somos todas apaixonadas pelo que fazemos, por isso nem pensamos em mudar de rumo. Fazer parte de um coletivo de criação literária não só nos dá prazer, mas é também uma forma de exercitar o criar livre. O importante é que, dentro dos recursos disponíveis, cada projeto atinja sua potencialidade máxima enquanto experiência literária. Não pensamos se um livro precisa ser maior ou mais colorido para chamar a atenção nas livrarias; se está adequado aos editais de governo ou se as escolas vão adotar. Pensamos qual é a melhor maneira de contar aquela história, qual a melhor maneira de fazer aquele livro... e isso é muito libertador. Não conseguimos avaliar com muita precisão nossa atuação no mercado. Queremos continuar produzindo projetos experimentais, o que nem combina com mercado.

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