Eu nem ligo, 

de Márcia Leite e Jean-Claude Alphen

Leitura de Dani Gutfreund

Algumas coisas mudam tudo. E é incrível pensar como mudam tudo de um jeito inesperado e como são necessários tempo e trabalho para a adaptação, para se entender na nova situação – e com ela –, ainda que, para quem vê de fora, pareça um trajeto bastante comum. Eu nem ligo me fez pensar em Tudo muda (Anthony Browne, Pequena Zahar), que, em minha opinião, seria um livro perfeito não fosse o final, mas isso é comigo e assunto para outra conversa. Não pelas semelhanças, mas porque tratam de maneira tão diferente algo tão corriqueiro como a chegada de outro, o perder espaço, porque fazem pensar em como recebemos o novo, mas também sobre o que desconhecido desperta em cada um de nós . Eu nem ligo faz com que o leitor, junto à sua protagonista, experimente a vastidão de sentimentos que podem nos permear sem poupar – ou, talvez melhor, acolhendo – aquelas que não são as mais deleitosas emoções. Mas, leitores nem ligam, porque o livro é um lugar seguro, onde podem se identificar com elas, experimentá-las, rir ou chorar com elas, pensar sobre elas e, com sorte, acomodá-las melhor.

Na capa do novo livro de Márcia Leite e Jean-Claude Alphen, vemos uma porta que abre caminho para um lugar escuro, a narradora, à espreita, segura seu ursinho de pelúcia pela orelha, cujo corpo retraído parece conter a dor. Entrar no livro corresponde a desvendar esse escuro do que há de mais íntimo ou primitivo. E, assim, abrimos para ver o que a porta esconde e, na primeira orelha do livro, um desejo: o foco é nas mãos da menina que, agora, enforcam o pobre ursinho. Precisamos abrir a aba para descobrir na segunda capa uma surpresa escondida: um bebê dorme no silêncio protegido de seu quarto escuro. Nessa sequência quase muda, não fosse pelo título, uma apresentação, com traços rápidos e poucas cores, precisamente empregados: agora sabemos do que se trata.

No fólio, podemos ver mais de perto o desejo reiterado: é verdade que nossa protagonista enforca sem qualquer dó e com toda a força seu ursinho. Mas, que história é esta? Viramos a página e o escuro do quarto invade a menina. Na esquerda da dupla, quase toda branca, lemos “Agora a mamãe só fica com esse bebê”. O que deveria ser um lugar protegido, conhecido, transborda abandono. Voltamos a ela, atrás da porta, de cabeça baixa, sempre segurando seu bichinho, e de costas, como se recusasse a ir adiante na história. O escuro do quarto aumenta. Já sabemos um pouco mais, mas, lembremos que nossa protagonista nem liga e vai repetir isso ao longo da

narrativa, caso algum leitor desavisado ouse pensar que ela pode estar incomodada. Ou com raiva, ou triste, ou se sentindo abandonada, com inveja ou ciúme, vendo seus pensamentos serem, pouco a pouco, tomados por uma imensa crueldade, ou por muita culpa, ou, pior, se pensar que pode estar interessada – ela não deixa que nos esqueçamos, repete “eu nem ligo” equilibrando o ritmo com o virar das páginas.

A leitura continua, ora encontramos partes dos personagens, ora eles estão inteiros, às vezes pequenos nas duplas quase vazias, às vezes maiores, ocupando o espaço que é deles – só deles? Imagens, cheias de movimento e expressão, coloridas digitalmente em porções certeiras, carregam as palavras das mais diversas emoções que afligem essa menina enquanto ela tenta recompor seus pedaços se entendendo com seu sofrimento.

Como ela faz isso? Explorando seus recursos, os levando aos limites para reencontrar seu lugar ou, pelo menos, um caminho para ele. Ela brinca: de “o mestre mandou”, de balanço,

de faz-de-conta.

A mãe, só aparece duas vezes e em pedaços, sempre segurando uma agulha que, embora pungente, serve para emendar o ursinho. Curiosamente, o primeiro remendo fica bem na posição do umbigo – fecho do cordão que liga o bebê à mãe e que compõe metáfora tanto para o nutrir quanto para o crescer. Na primeira vez, a mão da menina parece se dirigir à da mãe, enquanto seu corpo envolve a grande almofada, maca improvisada para o urso. A imagem preenche a página direita da dupla: a menina olha em direção ao futuro, e sua mão esticada funciona como um virador de páginas – o mesmo movimento que solicita a mãe nos impele a seguir adiante. Seria uma coincidência? Na prancha seguinte, escuro, à esquerda, o ursinho descansa protegido, mas de cabeça baixa. Nina dorme ao seu lado, tudo é silêncio. Ao virar a página, uma questão se coloca, mas a menina, que se sentiu abalar, logo repete: “mas eu nem ligo...”. Na segunda vez, a ação se concentra na página esquerda, e evoca uma pergunta fundamental em um fundo todo em branco. Na dupla seguinte, novamente tudo está escuro, uma imagem de abandono – não há respostas à pergunta que ficou no vazio. O silêncio nessa dupla é pesado e faz com que seja difícil virar a página. Ainda no escuro, talvez haja uma chance de aproximação – ou seria redenção? As páginas que seguem continuam escuras e, ali, parece que nossa protagonista começa a ver melhor. A intimidade com o que é escuro nos possibilita enxergar muito além.

O silêncio, seja no escuro ou naquilo que permanece em branco, vai da mais profunda angústia e solidão até um lugar fértil, de reconstrução e aprendizagem, da criação de um novo modo de ver. Metáforas tão fortes quanto essas permeiam todo o livro, seja em palavras, imagens, ou lacunas a serem preenchidas pelo leitor.

Eu nem ligo

texto: Márcia Leite

ilustração: Jean-Claude Alphen

Editora Pulo do Gato

​isbn 978-65-87704-03-6

60 páginas

20 x 25 cm

​Livro-álbum

para leitores de todas as idades

​R$ 56,00

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