Victor Menezes

Harry Potter:

A história por trás do mundo mágico de J. K. Rowling

Victor estava no quinto ano quando assistiu pela primeira vez a Harry Potter e a Pedra Filosofal, na própria escola. A professora queria apresentar aos alunos um filme “que estava fazendo um grande sucesso entre as crianças”. Segundo ele, foi amor à primeira vista. “Desde aquele momento, e em particular a partir de 2003, quando comecei a ler os livros, Harry Potter tornou-se uma das minhas histórias literárias prediletas”, diz.
Atualmente, todos os sete livros da série fazem parte da sua biblioteca pessoal, em várias versões: português, inglês, espanhol e até latim (o primeiro volume da coleção). Além de Harry Potter, Victor também leu todos os outros livros de J. K. Rowling, como Morte Súbita, a série Cormoran Strike, os roteiros dos filmes Animais Fantásticos e Onde Habitam, Animais Fantásticos: Crimes de Grindelwald, e o roteiro da peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, a oitava história que atualmente está em cartaz em um dos teatros do West End, em Londres. “Rowling faz parte da minha tríade de autores literários preferidos, que se completa com

Arquivo pessoal

Jane Austen e José de Alencar (eu os chamo de meus três “Js”)”, diz.

Mas foi em 2010, quando iniciou a graduação em História na UNICAMP e teve acesso a obras teóricas e historiográficas, que ele confirmou algo que já desconfiava: os enredos criados pela autora inglesa apresentavam referências e alegorias a alguns dos momentos históricos do século XX e às questões sociais, culturais e políticas da contemporaneidade. “As minhas primeiras leituras de Harry Potter foram todas realizadas sem objetivos analíticos e/ou acadêmicos. E devo ter lido cada livro da série pelo menos umas dez vezes. No entanto, aos poucos, comecei a perceber várias relações. Lembro que, durante o Ensino Médio, em diversos momentos, cheguei a comentar com colegas e professores o quão semelhantes eram, por exemplo, a ideologia racial defendida por bruxos conservadores e seguidores de Voldemort e as ideologias nazifascistas; a parcialidade de nossa mídia e a também parcialidade das mídias bruxas; e o preconceito sofrido pela família Weasley e o preconceito sofrido por pessoas pobres em nosso país”, diz.

Começou então a olhar a série de J. K. Rowling sob uma perspectiva científica/acadêmica. “Pensar hoje em Harry Potter como um possível objeto de estudo do historiador é, portanto, totalmente resultado dos cinco anos em que fui estudante de História”, diz. Ele explica: “Alguns dos meus professores defendiam que todas as produções culturais –  livros, filmes, séries, telenovelas, músicas, a própria História –, por trazerem consigo aspectos próprios de seu momento de produção, poderiam ser utilizadas como objeto de análise dos historiadores. Fiz disciplinas com docentes que se utilizavam em aula, a título de exemplo, dos grafites encontrados nas paredes de Pompeia para entender aspectos sociais, culturais e políticos da Antiguidade Romana; de bulas papais para a compreensão da história da Igreja Católica na Baixa Idade Média; dos escritos de Shakespeare e de Machado de Assis para o estudo da sociedade inglesa do século XVI e da brasileira do XIX, respectivamente; dos filmes hollywoodianos para a análise de discursos produzidos nas últimas décadas sob as mais diversas temáticas; e mesmo das telenovelas brasileiras para o entendimento de alguns dos aspectos do Brasil Contemporâneo. Todas essas produções culturais, vistas então como documentos, ao terem sido produzidas em um determinado contexto histórico nos possibilitaram entender, durante as aulas, certos aspectos do contexto”.

A partir dessa metodologia de pesquisa, surgiu o projeto de analisar a sociedade na qual J. K. Rowling vive (ou seja, o Reino Unido, em particular, e o Ocidente no geral) por meio de seus escritos. “Harry Potter não é um livro de História, mas, por ser produto de uma determinada cultura e sociedade, é possível lê-lo por uma perspectiva histórica. Um exemplo: por meio do F.A.L.E (S.P.E.W. no original), criado pela Hermione em Cálice de Fogo, podemos discutir os movimentos abolicionistas brasileiros do século XIX em favor da libertação dos escravos. O discurso da personagem em prol da libertação dos elfos pode ser comparado, em alguns momentos, ao de homens e mulheres que lutaram pelo fim da escravidão nas Américas; já a ideia de que os 'elfos gostam de servir', que está presente em grande parte das personagens – inclusive em Rony –, é semelhante ao que diziam, na época, os defensores da manutenção da escravidão. Podemos, aqui, tecer comparações e discussões entre a escravidão de pessoas negras, que marcou profundamente a história moderna da América e da África, e a escravidão élfica criada por Rowling para a série. É possível também discutir as atuais lutas LGBTQ e feministas em prol da igualdade de gênero, uma vez que a militância política de Hermione em favor dos elfos-domésticos assemelha-se em determinados momentos às atuais militâncias de tais grupos. Logo, todo o enredo que envolve o F.A.L.E é fruto de experiências históricas próprias de nosso tempo e, como tal, pode ser entendido como uma alegoria de questões reais que marcaram ou ainda marcam as sociedades ocidentais. Se Rowling tivesse escrito a série no século XVIII, por exemplo, a discussão sobre a escravidão élfica não estaria presente dessa mesma forma em sua obra. Harry Potter, para além de constituir uma expressão literária, passou então a ser lido e entendido por mim como um documento de nosso tempo, ou seja, um texto em cujas entrelinhas podemos encontrar comentários, críticas e percepções sobre questões históricas recentes", diz. Ao entendê-lo dessa forma, Victor não pretende tirar a carga de “magia” que ele possui como obra literária, mas acrescentar um novo fator à saga, que pode ser utilizada como um meio para se analisar e compreender algumas experiências sociais, culturais e políticas que marcam o mundo em que vivemos.

Do Mestrado na área de História Cultural ele desenvolveu o curso que agora traz para o Lugar de Ler. “Esse curso surgiu, na verdade, para o Programa UniversIDADE da UNICAMP, criado pela reitoria da instituição para pessoas que tenham no mínimo 50 anos e que possam participar presencialmente das atividades. A minha participação no programa começou no segundo semestre de 2016, quando ministrei a oficina Capas, Espadas e Sandálias: construções da Antiguidade Romana no cinema. Depois, em 2017, dei a oficina A Antiguidade Romana nos filmes e seriados estadunidenses. Ao longo das aulas teci alguns comentários sobre a série Harry Potter e o quanto ela, assim como os filmes que estávamos estudando, é influenciada por questões históricas, sociais e culturais da sociedade. Tais comentários motivaram um grupo de alunos a sugerir que eu desse uma terceira oficina no UniversIDADE, mas que, dessa vez, falasse do mundo mágico criado por Rowling. Assim surgiu o curso Harry Potter: história, cultura e relações de gênero no Mundo Mágico de J. K. Rowling, que aconteceu entre agosto e dezembro de 2017 na universidade”, diz

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