Uma maga de verdade

Entrevista com Lara Meana

Por Dani Gutfreund

Era uma vez uma menina chamada Lara que, desde pequena. gostava muito de ler. Lia escondida na escada, lia no ônibus, lia no parque, lia livros emprestados. Ela cresceu e viajou pelo mundo, conheceu vários países - Estados Unidos, França, Cuba, México, Brasil. Mas Lara não conseguia viver numa cidade grande, então foi em direção às montanhas, morar em um bosque bonito, em um pequeno povoado com 500 habitantes. Lá, teve seus filhos e arrumou o emprego dos sonhos para quem gosta de livros: foi trabalhar na biblioteca. Passaram-se cinco anos e ela sentiu saudades do lugar onde nasceu, Gijón, uma cidade entre o mar e as montanhas na região das Astúrias, na Espanha. Voltou para casa com o sonho de trazer com ela esse bosque cheio de livros onde havia morado. Assim nasceu El Bosque de la Maga Colibrí, uma livraria e biblioteca que também promove mediação de leitura e formação de leitores. Hoje, esse projeto ocupa quase todo o seu tempo. Quase todo porque ainda sobra um pouco para Lara trabalhar como tradutora para algumas editoras e até de brincar de editora, como fez com o livro Arlequín. Como se não bastasse, ela está sempre envolvida em cursos e exposições e ainda publica livros - é autora de Selou e Maya, editado pela SM Brasil. Agora mesmo está escrevendo um romance!

A seguir, Lara conta com exclusividade ao Lugar de Ler a história de como a literatura sempre foi um norte em sua vida.

Lara Meana nasceu em Gijón, na Espanha, onde abriu a livraria El Bosque de la Maga Colibrí. Mediadora e formadora de leitores, ela também é autora do livro Selou e Maya, editado pela SM Brasil, e idealizadora do livro Arlequín (lançado na Espanha pela Barbara Fiore Editora), que traz quatro versos de Federico García Lorca ilustrados por André da Loba.

​Lugar de Ler: Os livros chegaram a você muito cedo. Conta para a gente sobre sua trajetória como leitora?

Lara Meana: Leio desde sempre: lembro de mim no parque, com um livro nas mãos; lendo sentada em um banco enquanto as outras crianças corriam ou faziam fila para subir no balanço. Também em filas ou enquanto esperava o ônibus da escola, sentada no colo das minhas amigas e fazendo uma mesinha com os cotovelos para apoiar o livro no assento da frente. Lia escondida num cantinho nas escadas do pátio da escola para que ninguém risse de mim por não estar brincando; ou durante as aulas, com o livro encaixado embaixo da carteira. Leio para esquecer o que me rodeia, não por ser horrível, mas porque a ficção sempre me pareceu mais interessante do que a realidade. Li os livros que meu pai comprou para mim, aqueles que peguei emprestado de primas, vizinhas, colegas da escola, professoras… quando ficava sem ter o que ler, recorria aos livros que meus pais compraram quando se casaram para preencher as prateleiras da estante, ao redor da televisão. Ali havia de tudo: romances, histórias em quadrinhos, grandes clássicos, livros de suspense. Escolhia os títulos ao acaso, começava a ler e, se me interessavam, ia até o fim. Desde então venho percorrendo esse caminho livre e eclético.

 

Lugar de Ler: Como chegou a El Bosque de la Maga Colibrí?

Lara Meana: Nunca pensei em estudar literatura, porque me aborreciam as análises minuciosas daquelas obras pelas quais era apaixonada como leitora. Meu pai sempre disse que eu seria livreira, mas eu olhava para as livrarias que conhecia e achava que não se pareciam em nada com aquela que sonhava em ter. Gostava de estar entre livros e conversar com outros leitores, por isso, quando surgiu uma vaga de bibliotecária no povoado da montanha onde morava, decidi apresentar um projeto de dinamização de leitura (termo utilizado na época para práticas que levassem a biblioteca a outros lugares: piscina, praia, povoados distantes…), que incluía crianças, jovens, adultos e idosos. Consegui o cargo e fiquei lá por cinco anos. Porém, logo que as dinâmicas começaram a funcionar autonomamente, senti que precisava de novos desafios. Além disso, o salário era baixo demais para sustentar a família e a leitura era a última prioridade da prefeitura. Tinha a sensação de que, para realizar meu trabalho, precisava enfrentar cada vez mais problemas burocráticos, que consumiam toda minha energia. Chegou então a hora de me mudar, de voltar para casa e construir meu próprio projeto. Assim nasceu El Bosque de la Maga Colibrí, uma livraria com serviços de promoção de leitura, formação de leitores e mediadores, e que ainda conta com uma biblioteca com 1.500 volumes. Também organizamos oficinas de leitura para crianças, jovens, adultos e famílias com bebê. As temáticas variam: escrita, ilustração, teatro, música… Há ainda cursos de formação para professores, bibliotecários, mães e pais, em torno de livros e leitura. Recebemos cinco exposições por ano de ilustradores, nacionais e internacionais, e em nossa programação anual contamos com cerca de 200 atividades.

Lugar de Ler: Conte um pouco mais sobre esse caminho de leitora a formadora.

Lara Meana: Além de ler, as coisas que mais me deixam feliz são conversar sobre livros e compartilhar leituras. Ler em voz alta para outras pessoas, trocar recomendações, impressões e reflexões sobre obras literárias: acho que é aí que está a sementinha da profissão que escolhi. Às vezes, uma clara linha reta nos leva até nossa vocação. No meu caso, esse caminho foi labiríntico: estudei psicologia e tradução simultânea, participei do trabalho comunitário com mulheres na Guatemala, dei aulas de inglês e de reforço para sobreviver. Porém, durante todo esse tempo, histórias foram contadas e relatos, ouvidos; na mochila, livros: a  literatura sempre foi meu fio condutor. Quando comecei a trabalhar na biblioteca, senti que precisava aprender mais sobre livros para crianças. Comecei fazendo um curso na Fundação Sánchez Ruipérez, de Salamanca, que despertou em mim uma avidez de conhecimento desmesurada. Lia toda a bibliografia à qual tinha acesso, trocava experiências com outros bibliotecários através daquelas listas de correspondência que precederam as redes sociais, tentava participar de cursos diversos. Depois de cinco anos, decidi fazer um mestrado sobre promoção de leitura, no qual entrei por mérito profissional, pois não tinha me formado. E foi lá que surgiu o projeto da livraria El Bosque de la Maga Colibrí.

Magas e Bruxas

​​Lugar de Ler: De onde vem o nome da livraria?

Lara Meana: Hoje provavelmente eu mudaria o nome porque acho que já não reflete tão bem o espírito do projeto, sua concepção de literatura para crianças e jovens. Mas, no início, fazia todo o sentido do mundo para mim. E a gente não pode se envergonhar do lugar em que começou o caminho, pois a origem é parte dele. Então, por ora, seguiremos com ele (risos). O nome nasceu de uma confluência de duas ideias: por um lado, a saudade [Lara usa o termo saudade em português, no original] que me dava ao deixar o bosque e voltar para a cidade. Por outro, o nome do programa de rádio que eu gravava semanalmente e enviava à Guatemala, onde era emitido para as rádios comunitárias do distrito de Huehuetenango. Naquela época, nessa região não havia bibliotecas nem livrarias, muito menos acesso a livros de ficção para crianças. Assim, eu gravava um programa de uma hora em que lia contos a voz nua, sem arranjos musicais de qualquer tipo, que seria transmitido nas comunidades rurais aos sábados de manhã, para que as crianças tivessem acesso à literatura de alguma forma. Passei dois anos inteiros fazendo esse programa, que se chamava Los cuentos de la Maga Colibrí [Os contos da Maga Colibri], nome com o qual um grupo de estudantes me batizou ao saber que eu contava de memória umas das histórias favoritas de meus filhos. El Bosque de la Maga Colibrí fala então das minhas origens: das árvores do bosque que me abrigaram e desse trabalho comunitário em que meu trabalho cotidiano tem raízes.

Lugar de Ler: E o que são as TresBrujas?

Lara Meana: Espaços como El bosque propiciam encontros com outros amantes da literatura infantil e juvenil, e também com vários profissionais. De um desses encontros nasceu a equipe das TresBrujas [TrêsBruxas]. Éramos três: Beatriz Sanjuán, especialista em leitura na primeira infância, Olalla Hernández, especialista em novelas gráficas e eu. O nome surgiu um pouco por acaso, a partir de um livro de Grégoire Solotareff de que a gente gostava, e porque nós três tínhamos admiração pela figura da bruxa, seu modo de se entranhar não só pela literatura popular, mas também pela História: mulheres que transgridem os papéis que lhes são atribuídos e, por isso, são afastadas. Também nos interessava sua parte obscura, a mistura de bondade e maldade, tudo o que simboliza os contos. É um nome que tem muito a ver com o que buscamos: sair do enquadramento, do que se pressupõe ser o trabalho de mediação de leitura, para colocá-lo em prática a partir de outro lugar, sem deixar de explorar novos caminhos, sempre refletindo sobre o que ocorre entre a literatura e os leitores, buscando que a magia aconteça. Agora, a equipe conta também com Ana Cadrecha, pedagoga e especialista em LIJ, e Freddy Gonçalves, da Pez Linterna, especialista em leitura com jovens. Como todo projeto vivo, é importante se mover, mudar, crescer, minguar. Juntamos nossas experiências e campos específicos de conhecimento para realizar projetos mais amplos, em outros cenários (bibliotecas, hospitais, escolas, nas ruas etc.).  

 

Lugar de Ler: A livraria tem uma proposta muito especial, privilegiando a formação de leitores e estabelecendo uma relação de grande proximidade com editoras, autores, bibliotecas, ilustradores e até outras livrarias. Você pode falar um pouco sobre isso?

Lara Meana: Da experiência do trabalho comunitário eu obtive a fé cega no trabalho em rede. Buscar não só companheiros de batalhas, mas também de caminhos. É minha forma natural de trabalhar, e também de entender a vida, minha maneira de me relacionar com os outros: tecer redes de intercâmbio. El Bosque de la Maga Colibrí é uma livraria pequena e independente. Seu único modo de sobrevivência é buscar colaborações com outros seres que habitam esse mundo dos livros ilustrados: escritores, ilustradores, editores, livreiros, bibliotecários… Todos nos movemos por paixão, lutamos para viver com um mínimo de dignidade em um setor cultural que cada vez mais está dominado pelas grandes editoras, por grandes cadeias, pela Amazon. Podemos sobreviver apenas se nos juntarmos, se desenvolvermos estratégias de colaboração, se buscarmos a cumplicidade para tratar de fazer chegar ao leitor esses livros que acreditamos que valem a pena.

 

 

Um lugar de encontro

 

Lugar de Ler: Você diz que "os livros são como portas para os olhos”. El Bosque de la Maga Colibrí também: tudo está à vista para quem passa, sendo o melhor convite para entrar. É um espaço acolhedor, com recomendações personalizadas, que torna o ato de comprar livros algo especial. Sua experiência como bibliotecária parece ter uma grande influência na relação de intimidade e confiança que você estabelece com seus clientes-leitores. Como essa relação é construída no dia a dia da livraria e em outras ações propostas por vocês?

Lara Meana: Qualquer espaço de mediação de leitura - biblioteca, livraria, parque, escola - deve ser, antes de tudo, um lugar de encontro. Creio que o papel do mediador é simplesmente esse: o de propiciar que leitores encontrem livros inesperados e que livros encontrem leitores surpreendentes. Para isso, os livros têm que estar ao alcance das mãos, à altura dos olhos e, se possível, com as capas à mostra. No projeto da livraria, levamos tudo isso em conta: como os leitores se movem, como se aproximam dos livros, a necessidade de compartilhá-los com adultos ou de manter a privacidade, na adolescência. Há um sofá, uma mesa com cadeiras pequeninas, degraus onde é possível sentar. O objetivo é conquistar espaços para ler. Que todos se sentem e explorem suas leituras antes de levá-las para casa, como em uma biblioteca.
É claro que na livraria há uma mediação econômica e isso, às vezes, delimita certa distância. Mas, para nós, qualquer leitor é bem-vindo, desde que trate os livros com amor. Por outro lado, os participantes das oficinas (crianças, jovens, professores e bibliotecários) têm acesso à nossa biblioteca de empréstimo, entre uma sessão e outra. Isso permite que experimentem leituras diferentes sem custos financeiros e nos ajuda a estabelecer um diálogo com os leitores, recomendando-lhes novos títulos e ouvindo suas recomendações. É um conhecimento que se baseia na retroalimentação: a nosso critério “teórico” e pessoal, podemos somar uma grande variedade de experiências leitoras para colocá-lo à prova, contrapor-se a ele. Todo o processo tem muito de investigação-ação.

 

Lugar de Ler: A livraria oferece o tempo e o ambiente propícios para uma leitura prazerosa e demorada. Você poderia falar um pouco sobre o prazer da leitura e suas implicações na formação do leitor?

Lara Meana: Descobrimos o prazer da leitura muito cedo, nas vozes de nossos entes queridos, que nos cantam, recitam, contam os contos que eles também escutaram de seus pais e avós. São as boas-vindas ao mundo que também nos reconhece como parte de uma família, de um coletivo maior, da humanidade. É aí, através da voz, que começa nosso caminho leitor. Se tivermos a sorte de manter isso, dessa leitura em voz alta continuar mesmo depois de termos aprendido a ler autonomamente, o fio não se romperá. Enquanto a criança aprende a ler, há um período longo, que pode durar até dois anos, em que o processo de decodificação e compreensão não está ainda automatizado. E, portanto, é algo tão trabalhoso que não somos capazes de desfrutar dele. Mas, se um adulto lê para a gente em casa ou na escola ou em qualquer outro contexto, e, melhor ainda, lê uma história que nos interessa, vamos querer chegar a essas ficções, as quais sabemos que nos esperam no futuro e que nos farão felizes. É um pouco como aprender a costurar, a dançar ou a tocar um instrumento. No começo é entediante, porém sabemos que, com constância e prática, vamos gostar de fazê-lo. E, por isso, continuamos com nosso empenho. Leiam para as crianças que os rodeiam: é um presente afetivo que, além de tudo, tem como consequência o amor pela literatura. É isso que tentamos transmitir às famílias e aos professores que se aproximam da livraria.

 

Lugar de Ler: O que significa ser uma livraria de acervo? Vocês mantêm uma grande quantidade de títulos, selecionados minuciosamente. Poderia elencar os critérios para essa seleção e como ela acontece?

Lara Meana: Há livrarias que seguem o que dita o mercado editorial, expondo as novidades e os livros mais vendidos, mudando continuamente seu acervo, sem nenhum outro critério a não ser vender o maior número de livros possível. Há outras que têm o mesmo desejo, mas mantêm um critério independente e tentam oferecer aos leitores uma variedade ampla de literatura de qualidade. Essas últimas são as que me interessam como leitora. Adoro ir a livrarias e pedir conselhos a livreiros, que me revelam obras que ainda não conhecia. E comprar nelas, claro. Por essa razão, quando me coloquei a questão da seleção do acervo da El Bosque de la Maga Colibrí, tinha clareza de que queria que fosse formado por obras de qualidade, no que diz respeito a ilustração, texto e edição. O processo todo levou onze anos, pois, no início, me apoiei no conhecimento de outros especialistas e, pouco a pouco, fui desenvolvendo o meu próprio. Logo, Ana Cadrecha juntou-se à equipe; depois, veio Rita Frade, que ficou por vários anos conosco, e, por último, Freddy Gonçalves. Cada um seleciona os livros que passam a fazer parte de nosso acervo estável. Além disso, há os leitores, cujas recomendações levamos muito a sério. Obviamente, todos os meses, as editoras enviam seus catálogos com as novidades. Fazemos uma seleção prévia, com base em nossos conhecimentos sobre os autores, ilustradores e editores. Quando os livros chegam, lemos e decidimos se passarão ou não a fazer parte do fundo fixo da livraria. Nas oficinas, os colocamos à prova com os leitores para ouvir a opinião deles. Assim, o acervo da livraria está sempre mudando, em movimento.  

Os bons livros

Lugar de Ler: Na sua opinião, que características definem uma publicação como obra literária?

Lara Meana: Para mim, uma obra literária é um universo ficcional em que o leitor mergulha. Deve ser verossímil, para produzir o pacto de ficção necessário para que seja real. Também deve ser honesta, livre de intenções moralizantes ou educativas evidentes, de modo que nos permita uma imersão na história que o autor quer nos contar. Tem que ser coerente em seu desenvolvimento e ter uma estrutura que a sustente. E, claro, personagens complexos e muitas camadas de significados, das quais provavelmente o autor nem sequer tinha consciência quando escreveu ou ilustrou o livro.

 

Lugar de Ler: O que distingue a boa literatura?

Lara Meana: A boa literatura nos prende irremediavelmente. Habitamos esse universo paralelo durante o tempo em que a leitura dura, mas ele continua latente quando ela acaba. Há livros que chegaram a parecer mais reais do que minha vida cotidiana, seus personagens me acompanharam até em meus sonhos. Abandonar-se à ficção sem conseguir evitar o abandono, viver, rir, sofrer, pensar, sonhar e mesmo estabelecer um diálogo com seus personagens… e continuar lembrando deles por muito tempo. As experiências literárias nos constituem tanto quanto aquelas que vivemos no “mundo real”.  

 

Lugar de Ler: Você diz que a leitura não tem a ver com a quantidade de texto, mas com a complexidade do livro. Como lida com os estereótipos, ou mesmo censura, de pais e outros mediadores, que acreditam que livros-imagem ou livros-álbum, que apresentam pouco texto, não sejam adequados porque as crianças não têm muito o que aprender com eles?

Lara Meana: Como sociedade, tendemos a instrumentalizar todas as nossas ações. Inclusive a de ler: quando eu era pequena, dizia-se que ler “era uma perda de tempo” e, agora, é um ato fiscalizado pelos adultos, que deve ser funcional e servir para ensinar ou para provocar a reflexão sobre alguma coisa. A literatura não serve para nada. E serve para tudo. Somos leitores porque precisamos escutar as histórias de outros para que possamos nos escrever. Todo ser humano constrói sua própria narrativa, conta-se a si mesmo: quem somos, de onde viemos, porque somos como somos. E o que fazemos através da identificação com o outro ou na posição dele. E esse “outro” pode ser uma pessoa próxima ou o personagem de uma obra de ficção, as experiências cotidianas ou as literárias. Uma experiência literária pode ser contada com imagens, com palavras, mas também com silêncios. Os livros-álbum precisam de uma voz nossa em maior medida, temos que “preencher os espaços vazios”, escrever o que os autores não estão contando. É um ato de criação, como toda literatura. Porém, é verdade que pesamos o que as crianças leem “na balança”, achamos que uma leitura é melhor do que a outra devido ao número de páginas ou à quantidade de palavras, e entendemos a evolução leitora como conquista de textos mais longos. Temos uma concepção reducionista da leitura. Há uma metáfora que os editores da casa editorial Media Vaca colocam na quarta capa de todos os seus livros que me parece muito reveladora: “os livros para crianças não são como as roupas para crianças, vários tamanhos menores.”  A literatura é complexa por definição e, embora haja recursos para que as histórias cheguem aos pequenos, não são histórias mais simples, porém contadas com mais simplicidade. Os bons livros para bebês são um ótimo exemplo: são experiências narrativas para eles, cheias de camadas de significado das quais eles se apropriam à medida que as descobrem. O que eu digo aos pais e aos professores? Por um lado os convido a ler obras mais complexas sem palavras, colocando-os em embate com sua própria dificuldade de ler imagens. Creio que um dos problemas é que, com frequência, os adultos depreciam aquilo que não entendem ou que faz com que sintam não ter todas as respostas em frente às crianças, o que os assusta. Sempre lhes conto que aprendi a ler imagens e livros-álbum com as crianças, que elas foram minhas professoras. E continuam a ser. Convido-os a escutar as leituras das crianças, suas interpretações, e deixar que elas nos revelem as chaves de leitura. Por outro lado, coloco uma reflexão: o que é mais complexo literariamente: um conto de Edgar Allan Poe ou O código da Vinci? Não se trata de ver quanto pesa, nem sequer da dificuldade pela forma. É simplesmente uma questão de profundidade e de complexidade da história. E de que chegue a você no momento adequado, seja lá qual ele for. Há obras pensadas para os bebês que acabam sendo significativas para nós, adultos, e vice-versa. Neste mundo em que vivemos há rótulos demais para tudo.


 

Lugar de Ler: A ideia de que o livro serve para ensinar a ler ou ensinar algo é ainda muito presente. Você poderia falar um pouco sobre a importância da literatura na vida das pessoas, considerando que ela não serve para nada?

Lara Meana: O que significa LER? Para mim, tem a ver com NOMEAR e  INTERPRETAR: o mundo que nos rodeia, o mundo literário, as relações entre os personagens. Uma criança lê desde que nasce e não para de ler durante toda sua vida. E a literatura é parte dessas leituras. Porém, se reduzirmos o significado de ler à simples decodificação dos signos de um texto, entramos em uma dinâmica funcional: lemos para aprender o que os outros querem nos ensinar. E, assim, se abre a porta para a aprendizagem mecânica. A informação em si mesma não supõe a construção do conhecimento. O conhecimento tem a ver com algo mais complexo: estabelecer relações entre os dados, colocá-los em contexto, contrastá-los com nossas experiências, elaborar hipóteses, refutá-las e retornar ao início quando nos encontramos com uma informação nova. A aprendizagem ética e emocional também não termina até a morte, por sorte. Seguimos tentando, acertando e nos equivocando. E a literatura é uma forma de experimentar como outra qualquer. É necessária porque construímos com a palavra, mas não para ensinar algo em si mesma.

 

Lugar de Ler: Você diz que crescemos com uma estética renascentista, doce - eu arriscaria adocicada, talvez romântica? , quando diz respeito à infância - e precisamos ampliar nosso referencial estético. Como romper com os preconceitos que condicionam a concepção de criança nos livros e no modo de entender dos adultos que movimentam o mercado de literatura infantil?

Lara Meana: O mercado de literatura infantil, salvo exceções de alguns projetos editoriais muito arriscados, responde ao que os adultos que compram livros para crianças buscam. E à concepção de ambos sobre a infância, daquilo que uma criança precisa, do que pode compreender ou apreciar. Existe um paternalismo muito limitante e que afeta tanto o tipo de histórias que oferecemos aos pequenos como o tipo de imagens que escolhemos para eles.   Como adultos, é difícil ler imagens, compreender a arte no figurativo ou aquilo que representa a realidade de uma forma livre ou conceitual. Por isso, porque crescemos em um mundo dominado pela estética Disney, das cores planas e linhas definidas, acreditamos que é disso que as crianças gostam. No entanto, elas não têm preconceitos, abraçam as diversas formas de representação, não fogem do escuro nem tampouco do perturbador. Quando falo de estética renascentista, evidentemente faço alusão aos meus próprios referenciais culturais europeus, como se, repentinamente, tivessem desaparecido dois séculos de História da Arte. Porém, acredito que possa ocorrer igualmente em outras culturas e suas expressões artísticas, negando toda a representação não idealizada da realidade. Para mim, explorar com as crianças toda a diversidade de representações artísticas é fundamental, porque nos ensina (a mim e a elas) a olhar o mundo de muitas maneiras diferentes para encontrar o nosso próprio modo, rico e mestiço.


 

Formação para todos

Lugar de Ler: Você fala que seu trabalho não consiste apenas em encontrar o livro certo para cada leitor, mas também em fazer com que as famílias entendam a importância de compartilhar as leituras e participar da construção do caminho leitor de seus filhos. Você percebeu, ao longo da sua trajetória, que, além das crianças, é fundamental se aproximar dos adultos que leem com elas - e, muitas vezes, escolhem os livros para elas -, sejam eles pais ou professores. Conte um pouco sobre seu trabalho com esse público.

Lara Meana: O caminho leitor não é quase nunca unidirecional, é um passeio labiríntico com leituras às quais voltamos uma vez, depois outra. A mediação de leitura também não acontece apenas na direção adulto-criança. Com frequência, ler em voz alta para as crianças faz com que pais, mães, avós, tios e mesmo professores recuperem o prazer da leitura. É, portanto, um caminho, no mínimo, bidirecional, ainda que, o fato de compartilhar experiências leitoras com outras famílias, na escola ou nas bibliotecas, faz com que se mova em todas as direções, às vezes, das formas mais surpreendentes.

Com frequência, no âmbito da mediação, vemos apenas o que os adultos recomendam às crianças, especialmente quando temos uma profissão com certo “poder educativo” sobre elas. No entanto, uma conversa literária de verdade acontece quando os adultos estão abertos a se deixar inundar por essa experiência, se abrem às suas interpretações e leituras, estão disponíveis para aprender com as crianças. Assim, essa verticalidade desaparece, e nasce uma horizontalidade que se dá naturalmente quando o bebê ainda é pequeno, mas, muitas vezes, ao crescer, se “institucionaliza”, vai se perdendo. A leitura adquire um peso “funcional”, se distancia do prazer para converter-se em um dever útil para os adultos, porém carente de sentido para as crianças.

Assim, a relação com os amigos e colegas ganha mais peso, e um bom mediador deve aceitar isso e tentar reconstruir essa relação que realmente tem mais a ver com uma conversa entre leitores do que com a condescendência do adulto, que já sabe, em relação ao leitor em formação.

A chave da mediação está em compreender que todos nós somos leitores em formação. E que, juntos, crianças e adultos em todos os âmbitos, compartilham leituras e continuam crescendo.

Assim, nosso conceito de mediação é amplo, é como um intercâmbio, uma conversa de ida e volta com os leitores: nós recomendamos os livros e as crianças compartilham conosco os livros que são importantes para elas. A escuta é fundamental, é importante ter em conta seus gostos, contrastá-los com os nossos. No mínimo, nesse diálogo há sempre uma aprendizagem: os adultos aprendem a ter empatia e respeito pelo critério delas; as crianças aprendem a desenvolver um discurso literário, são impulsionadas à análise em busca de argumentos para defender sua posição. É fundamental também trabalhar com as famílias e com os professores, porque ainda que cheguemos diretamente aos leitores em momentos pontuais, são eles que cotidianamente podem garantir o caminho leitor através da leitura compartilhada. Seu papel é muito diferente. Com as famílias, insistimos na leitura afetiva: ler para os filhos fortalece o vínculo e favorece a conversa sobre temas nem sempre fáceis de falar, tais como conflitos cotidianos e problemáticas sociais. Com os docentes, tentamos ampliar o enfoque meramente funcional, incorporando a educação literária, porém somando a ela o prazer estético, as possibilidades comunicativas, o conhecer melhor cada um de nossos alunos.

 

Lugar de Ler: Você investe muito na formação da comunidade leitora, criando uma rede cada vez maior, sempre baseada na confiança e num imenso compromisso com a literatura. Fale um pouco de como funciona La Cueva de la Maga [A Caverna da Maga], como espaço de formação de leitores.

Lara Meana: A Caverna da Maga é uma área que fica dentro da livraria, onde acontecem nossas atividades. Está dividida em três espaços: Taller de la Luna [Oficina da Lua] tem uma janela que dá para a livraria em forma de lua cheia e é onde realizamos as atividades com grupos pequenos; Taller de las Brujas [Oficina das Bruxas] é um espaço de reunião, de estoque (está sempre bagunçado, embora não queiramos que seja assim) e nossa biblioteca, que fica à disposição dos participantes de nossos cursos e oficinas que queiram pegar algum livro emprestado. Por último, temos o Teatro del Bosque [Teatro do Bosque], uma sala de 90 metros quadrados, onde acontecem exposições, cursos com grupos maiores, concertos, recitais de poesia, encontros com autores, ilustradores e editores. Procuramos fazer com que a programação seja a mais ampla possível e que gire em torno do mundo do livro. Conhecer os ofícios que permitem que o livro chegue às nossas mãos, e seus profissionais, faz com que tenhamos uma relação diferente com o literário, mais complexa e profunda. Temos quase duzentas atividades, que vão de oficinas de criação (ilustração, escrita, livro-álbum) a oficinas de formação de mediadores. Nosso encontro anual mais importante é Tiempo de lectura [Tempo de leitura], com jornadas que tentam se aprofundar na relação leitor-livro-mediador, ministradas pela equipe das Três Bruxas. Em breve, abriremos nossa escola online como uma tentativa de ampliar essa comunidade leitora e para que as pessoas possam ter acesso aos nossos cursos sem que que tenham que vir a Gijón.

Escrever para as crianças

Lugar de Ler: Há quem pense que escrever para crianças é para qualquer um. O que você acha disso?

Lara Meana: Escrever para crianças, para mim, é mais difícil do que escrever para adultos. Livrar-me de todos os meus preconceitos derivados da distância que me separa da infância é muito custoso. É dificílimo se desprender de toda intenção educativa, evitar a condescendência, lembrar daquilo que importava verdadeiramente nesse momento da minha vida, quais eram minhas preocupações, como as expressava. Escrever para crianças requer condensação e que se evite simplificações. Escrever sem que sobre ou falte qualquer palavra, com o equilíbrio preciso. É um exercício trabalhoso e esgotante, que me  causa muita insegurança. E que sabemos se deu certo apenas quando é colocado frente aos leitores.

 

Lugar de Ler: Qual é a história do livro Arlequín? Como surgiu a ideia do projeto e como ele se desenvolveu?

Lara Meana: Esse foi um projeto de equipe, quando as Três Bruxas eram a Beatriz Sanjuán, a Olalla Hernández e eu. Olalla encontrou um pequeno poema de Federico García Lorca, quase desconhecido, intitulado Arlequín. Tínhamos lido um ensaio sobre a infância e o jogo escrito pelo poeta, e nos interessava a relação com o objeto, suas possibilidades lúdicas. Além disso, queríamos um livro para bebês. Na feira de Bolonha, nos encontramos com o ilustrador português André da Loba, que sempre está acompanhado de uma maleta cheia de objetos pensados para contar histórias através de sua manipulação: pensamos que seria o máximo trabalhar com ele. E foi. Projetamos juntos o formato e logo começou um longo processo em que tentávamos encontrar uma segunda narrativa que fosse além da abertura do personagem. A primeira descoberta: os espectadores na primeira imagem, ao abrir o livro, que nos coloca diretamente no contexto de que vamos assistir a um espetáculo. A história da lua e do peixe, que se encontram no horizonte e se convertem em pássaro, chegou muito depois. As outras narrativas que tentamos não funcionavam ao testá-las com bebês, e nos parecia importante esse trabalho de investigação-ação, para garantir que a criança poderia se apropriar da história. Fizemos 17 versões até chegar à definitiva. André da Loba teve uma paciência infinita conosco, as bruxas editoras loucas (risadas). Gostaria de um dia fazer uma exposição com todas as versões. Acho interessante a ideia de poder ver o processo de um livro, o que funciona ou o que falha com as crianças, como as questões são resolvidas. De todo modo, apesar de os pequenos adorarem o livro, os adultos não o compreendem, têm preconceitos demais sobre como deve ser um livro para a primeira infância. Arlequín não tem ursinhos, nem cores pastéis, nem sons, nem abas.

É preciso fazer um esforço para demonstrar-lhes que sim, efetivamente, o livro interessa aos bebês.  

Lugar de Ler: Você sempre pensa nos projetos de seus livros? Como foi com Selou e Maya?

​Lara Meana: Para mim, os livros-álbum se baseiam em dois elementos imprescindíveis: uma estrutura e uma história. Existe algo a contar, além da beleza das palavras e das ilustrações. Curiosamente, Selou e Maya nasce de uma encomenda editorial nos Estados Unidos, feita à ilustradora Sophie Blackall, que me propôs que trabalhássemos juntas; um livro simples, bilíngue, para crianças bem pequenas, sobre animais. No início, eu lhe disse que não me sentia capaz - nunca havia feito nada do gênero -, mas a ideia começou a dar voltas na minha cabeça e, de uma maneira inesperada, surgiu a imagem de duas crianças brincando com seus brinquedos, que são animais, cada um ao seu modo. As onomatopeias em inglês e castelhano são bem diferentes e me pareceu um jogo divertido para um livro bilíngue. Quando tentava encontrar um contexto para contá-lo, percebi que a rua já não era um espaço público de brincadeiras, que a relação com seus bonecos devia se dar em casa. E em duas casas diferentes. A reflexão sobre a solidão das crianças, o isolamento em que vivem com poucas oportunidades de compartilhar brincadeiras, pouco a pouco impregnou o livro. Quando contei tudo isso à Sophie, ela me disse que para tal precisaria de, no mínimo, um ano, e que tinha que resolver a encomenda com rapidez. Então, decidi propor à María Pascual, porque tinha acabado de acompanhá-la no processo de criação e desenvolvimento de seu primeiro livro, ¿Dónde están mis gafas? [Onde estão meus óculos?], um pouco no papel de editora. Ela se entusiasmou com a complexidade da minha ideia e começamos a trabalhar no projeto. María Pascual é extraordinariamente apaixonada e foi um luxo que tenha se interessado em ilustrar o livro. O processo levou quase três anos, até que definimos os personagens, que são crianças de verdade, mas que precisavam ser dotadas de uma história complexa própria, mesmo que não fosse explícita no livro. Também deu muito trabalho encaixar

todas as peças da estrutura, especialmente a página dupla central que contém a chave do livro, quando se descobre a verdadeira natureza dos animais com os quais brincam Maya e Selou e a relação que os une. Na Feira de Bolonha, a SM Brasil demonstrou interesse pelo livro, mas decidiu que não queria que fosse bilíngue (português/castelhano ou português/inglês). O livro mudou bastante e não posso evitar de pensar que a estrutura dupla perdeu um pouco o sentido, ainda que essas são coisas que, suponho, sempre acontecem quando se publica uma obra. Nunca se sente totalmente feliz com ela.

 

Lugar de Ler: E tem algum livro novo no forno?

Lara Meana: Agora mesmo estou trabalhando em um romance, ainda que, por falta de tempo, esteja sendo um processo muito lento. É uma situação nova para mim, não por mudar de gênero literário, mas porque é a primeira vez que sinto a urgência de escrever, de contar uma história que cresce e me inunda. Nunca tinha me sentido “escritora”, justamente porque não sentia essa necessidade. Fazer um livro-álbum era um mero exercício criativo, mais mental que emocional. Agora me debato entre o medo de não ser capaz de terminar e a certeza de que há algo ali que vale a pena ser contado. Ou, talvez, precise contar essa história a mim mesma, o que acho que é um bom começo.

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