Luís Carlos Girão

Suzy Lee e o livro infantil:

percursos críticos para a leitura de imagens no literário

O encontro de Luís Girão com a autora e ilustradora de livros infantis Suzy Lee aconteceu de forma bastante inesperada. Há 15 anos, seu foco era bem diferente: ele gostava de música japonesa e de tecnologias atreladas a jogos e dança. Nesse embalo, acabou escutando música coreana e sentiu necessidade de entender aquelas letras, o que o levou a fazer cursos online para aprender a língua. Não só aprendeu como, em apenas dois anos, começou a traduzir letras de músicas coreanas para o português, o inglês e o francês: “Eu participava de atividades em fóruns online internacionais dedicados à divulgação da cultura coreana. E, em mais um desdobrar, comecei a traduzir notícias sobre música e cultura da Coreia para sites especializados, além de também escrever legendas em português para alguns dramas coreanos”, diz.

Arquivo pessoal

Entre 2008 e 2010, passou a criar projetos visuais para uma empresa fonográfica da Coreia do Sul especializada em música indie, voltando-se para as áreas de ilustração e design gráfico, suas formações acadêmicas originais. “Esse trabalho como ilustrador e designer foi extremamente rico por conta das trocas culturais e pessoais. Foi assim que descobri, numa conversa informal entre colegas durante o projeto de um disco, a arte de uma ilustradora coreana que estava ganhando reconhecimento internacional no mercado da literatura infantil.  Era Suzy Lee”, diz.

Nesse momento reacendeu em Luís a paixão por literatura dos tempos em que era criança. “Na mesma hora comecei a buscar mais informações sobre essa artista. Li entrevistas e soube que ela já produzia há mais de 10 anos”, diz. Não demorou para ele se deparar com a Trilogia da Margem, que naquela época já havia sido publicada em alguns países fora da Coreia, inclusive no Brasil (pela extinta editora Cosac Naify).

Assim que Luís comprou os livros de Suzy Lee, teve outra surpresa: eram sem palavras, compostos em narrativas pictóricas. “Aquilo causou um impacto profundo em mim, como criador visual e de gráficos para encartes de discos, ou seja, de narrativas visuais desdobradas de narrativas sonoras, sem contar o elemento maior: a utilização da materialidade do objeto livro como elemento constitutivo das narrativas pictóricas”, diz.

Não resistiu e procurou a autora por e-mail: “Ela foi muito solícita e generosa ao me responder. Desde então, mantemos contato, assim como estou sempre acompanhando as postagens que ela realiza em seu blog, onde compartilha leituras, seus processos de criação e discute o tema que tanto me interessa enquanto pesquisador: o 그림책 (geu-rim-chaek, podendo ser livremente traduzido como livro-imagem ou assemelhando-se à concepção que temos de livro ilustrado no Brasil), entendido como uma das grandes artes na Coreia do Sul contemporânea”, diz.

Daí não demorou para que Luís chegasse à decisão de pesquisar academicamente Suzy Lee e o objeto livro enquanto elemento compositor de narrativas na Literatura Infantil contemporânea.

“Eu poderia ficar anos falando sobre ela, mas em nome de uma síntese poética própria à língua coreana, isto é, à língua nativa de Suzy Lee, vou destacar os motivos mais fortes pelos quais sua obra me toca: a simplicidade abissal do narrar (verbal, visual, material), onde um espaço em branco nos exige pausas, assim como um riscado de carvão ou pastel seco; o drama em cada virar de páginas e o próprio ficar diante da página dupla aberta; o cotidiano mais puro de personagens que nos fazem re-acessar a infância, recalcada pelo mundo adulto, não importando a idade cronológica do leitor; o brincar e o permitir-se da brincadeira, um posicionar-se em defesa da imaginação no lúdico, pela ação ética/estética de propiciar ao leitor uma possibilidade de ele re-acessar também a página em branco, de ele próprio reviver o processo de inscrição das narrativas. Um devolver para o humano essa possibilidade de ser arrebatado pelo banal, pelo cotidiano, por aquilo que é pequeno, mas tão imenso”, diz.

Para ele, as experiências com a obra de Suzy Lee, seja em coreano, português, espanhol, inglês, francês etc., trazem algo de uma língua universal: a da arte. “Ela se define como uma picture+book artist. É graduada em Artes Plásticas, especializada em Pintura, e pós-graduada em Artes do Livro - cujo trabalho final do mestrado resultou em seu primeiro título, Alice in Wonderland, livro-imagem que é uma verdadeira miscelânea de técnicas e referências, uma homenagem a Lewis Carroll, publicado pela mesma editora que mantém o legado de Bruno Munari: a casa italiana Corraini Edizioni”, diz. Ele entende que Suzy Lee seja uma autoridade na criação de imagens e de livros, porém, o trabalho estético operado em cima dessas criações a colocam além da posição de autora: ela é uma artista daquilo que lhe dá autoridade. “Nomes como Angela Lago (Brasil), Maurice Sendak (Estados Unidos), entre outros, também nos colocam nesse ponto instável e, em certa medida, gostoso de estar: eles são autores de suas criações, no entanto, essas criações são essencialmente pensadas nas particularidades de cada uma das linguagens exploradas (sonora, visual, verbal, material etc.) Mesmo essa criação intermidiática nos leva de volta à ideia de artista. Um ir e vir instigante!”, continua.

Atualmente, é doutorando em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, realiza seminários como professor convidado nos cursos de extensão da PUC-SP/COGEAE e atua como pesquisador nos Grupos de Pesquisa (CNPq/PUC-SP) "A voz escrita infantil e juvenil: práticas discursivas" e "Processos de Criação". E virá ao Lugar de Ler para falar justamente de Suzy Lee e sua obra.

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