Marcelo Maluf

“Sou eu e não sou”

O primeiro livro de Marcelo Maluf, o infantojuvenil Jorge do pântano que fica logo ali é um relato autobiográfico, memorial e fantástico. O protagonista também se chama Marcelo e narra um período da infância do autor. Esse personagem reaparece, adulto, em outra história de Maluf: no romance A imensidão íntima dos carneiros, livro que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura de 2016 e ficou entre os finalistas do Prêmio Jabuti. 

“O personagem tem o meu nome, nasceu no mesmo dia que eu, na mesma cidade, na mesma maternidade. No entanto, no romance, o Marcelo-narrador-personagem vive histórias que o Marcelo-autor não viveu. Eu empresto ao personagem a minha história, mas ele tem a liberdade de seguir o seu próprio caminho. Costumo dizer que sou eu e não sou”, explica.

Cria-se então um jogo que envolve escritor e leitor, uma escrita de si que se torna do outro, uma memória que se refaz em novos registros. No final, o que realmente aconteceu? “O autor sempre se coloca de alguma maneira em seus textos, mas acredito que há uma diferença entre a intenção de narrar a si mesmo e a intenção de narrar o outro. O que há de Machado de Assis em Brás Cubas? A intenção do autor não foi a de narrar a própria vida, e sim a do personagem”, diz o escritor. 

Pode-se dizer que Marcelo continua buscando em sua vida as histórias para contar, mas hoje se interessa muito mais pela forma de fazer isso, ou seja, pelo modo de contar do texto memorial e autobiográfico. “Eu sempre parto de uma ideia, um assunto que me põe a pensar. Depois encontro uma voz/narrador/personagem para colocar essas ideias no papel. Em seguida, escrevo, escrevo, escrevo. Até encontrar o caminho pelo qual a história deverá seguir. Entre uma coisa e outra me alimento de leituras tanto de textos de ficção como de não ficção que, por algum motivo, tenham alguma conexão com o que estou buscando. E vou em frente. Nem sempre dá certo. Daí eu paro e recomeço. Ou engaveto e passo para um próximo projeto”, conta.Marcelo se lembra de ter começado a escrever por volta dos 11 anos, quando já esboçava alguns poemas e crônicas. “Eu tinha os livros daquela coleção Para gostar de ler. Ali, conheci e li autores como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Luís Fernando Veríssimo, Rubem Braga, entre outros. A leitura daquelas crônicas despertou o desejo de também escrever. Foi o que fiz e nunca mais parei.

Assim me vi rodeado por livros, literatura, escritores e escritoras. E esse universo se tornou o meu lugar no mundo”, diz. Nesse mesmo período ele começou a tocar bateria – inclusive, na década de 90, montou uma banda de punk-eletrônico junto com seus irmãos, chamada Concreteness. “Eu compunha, escrevia as letras, cantava (gritava) e tocava bateria. Em um momento acreditei que fosse trabalhar apenas com música”.  Acabou indo para a faculdade de Artes até que, por volta de 2002, decidiu se dedicar à literatura. “Já escrevia contos,

       foto: arquivo pessoal

tinha feito oficinas de criação literária com o João Silvério Trevisan, o Marcelino Freire e o Nelson de Oliveira. E, nesse período, escrevi, além de alguns contos que estão no meu livro Esquece tudo agora, de 2012, o infantojuvenil Jorge do pântano que fica logo ali, publicado pela FTD, em 2008. Quando o livro saiu e recebi alguns exemplares em casa, chorei e muito!”.   

Marcelo confessa que já teve dificuldade de ser escritor de livros infantis e adultos ao mesmo tempo. “Hoje superei esse bloqueio. Acredito que para escrever literatura, seja para adultos, crianças ou jovens, o trabalho do escritor é o mesmo. Escrever. Escrever. Escrever. Contar boas histórias, trabalhar com a linguagem. Reler. Reler. Reler. Respeitar o leitor, chegar até ele. O que muda, talvez, e posso falar por mim, é saber perceber se determinada ideia cabe mais num texto para crianças ou adultos. Ou até se é possível que essas fronteiras sejam superadas”. Sempre a favor de não se autocensurar, ele entende que existem assuntos mais delicados do que outros. “Mas com certeza há um outro ponto de vista, uma nova maneira de dizer aquilo. Tenho gostado muito de autores como Neil Gaiman, David Walliams, Elsa Bornemann, que encontram no humor e no imaginário fantástico um caminho para contar suas histórias”. 

Com um total de cinco livros publicados - três infantojuvenis e dois adultos -, Marcelo ganhou o importante Prêmio São Paulo de Literatura com A imensidão íntima dos carneiros, publicado pela editora Reformatório, em 2015. Uma notícia maravilhosa, mas que também não deixa de causar uma certa pressão para um jovem escritor, que pode travar no processo de criação de um novo livro: “Demorei muito para finalizar um romance depois do Imensidão. Foi só no final do ano passado que consegui. Mas, a verdade é que sou (ou era) muito lento para escrever”. 

Também atuando como professor de escrita literária, Marcelo está atualmente escrevendo duas novelas infanto-juvenis - uma delas em parceria com a Daniela Pinotti -, e começou um novo romance. Para os leitores, deixa um recado: “Acho que o meu texto mudou nesse período. E eu também”. 

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