Certos dias, 

de María Wernicke

Leitura de Janette Tavano

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O que faz um livro ser o livro? Ou melhor, o que faz um livro ser o nosso livro?

Aquele que lemos uma, duas, três vezes, por dias seguidos, ou então, com espaços de meses, anos, entre cada releitura, mas que sempre consegue provocar nosso corpo e nossa alma de forma única, nos fazendo sobressaltar, como se o estivéssemos lendo pela primeira vez?

 

Não sei responder – nem se há uma resposta para isso -, mas sei que Certos dias tem esse poder sobre mim.  Pode ser a temática da saudade, a cumplicidade entre mãe e filha, os traços delicados, silenciosos e que falam tanto de María Wernicke –  autora e ilustradora argentina -, e pode ser tudo isso junto, que, combinado nesse livro-álbum, causa uma reação sempre forte quando o leio.

Não é um livro novo: publicado na Argentina com o título Hay dias em 2012, foi traduzido para o português e lançado no Brasil pelo selo Casa Amarelinha em 2013. Quando o comprei, já conhecia um trabalho de Wernicke, Papai e eu, às vezes (Callis, 2010), do qual gostava muito.

O que me fez buscar Certos dias na estante agora e decidir escrever sobre ele, depois de lê-lo uma vez mais, tem a ver com o momento atual, com o fato de estarmos todos vivendo uma pandemia interminável e assustadora, que nos obrigou e ainda obriga a passar dias, meses, afastados de familiares, amigos, amores. Às vezes, não totalmente afastados, mas tendo que nos contentar com encontros rápidos, sem abraços, sem beijo nem mesmo um afago. Sem poder ver os sorrisos, tampados pelas máscaras, que compensariam um pouco os nossos olhos tristes. Sentimos saudade o tempo todo de tudo: das pessoas, dos lugares, de não ter medo, de se sentir leve, de fazer planos, de poder ler jornal sem chorar, de andar na praia, de sentir o vento na cara. 

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Para mim, Certos dias fala da saudade com incrível delicadeza. Uma saudade compartilhada entre mãe e filha pelo marido e pai que já morreu. Não à toa, Wernicke dedica o livro à sua mãe, logo no verso da capa do livro. E na primeira dupla, a narrativa começa com a frase: “Mamãe, quero te contar uma coisa...”, ao lado da imagem de uma ponta de mesa e uma cadeira vazia. Quando viramos a página, aquela ponta da mesa em que está a cadeira vazia ganha a sua continuação, e vemos mãe e filha se olhando com uma intensa doçura, sem nenhuma palavra.

A filha começa, então, a contar: “Em nosso jardim, há um caminho”. Seguimos esse caminho, levados pela filha, que leva a sua mãe. Toda em tons de cinza e com muito uso do branco, a narrativa visual começa a trazer o vermelho, aos poucos. Primeiro nas pontas dos lençóis que estão dentro dos baldes que a mãe carrega. Depois, o vermelho cobre quase toda a página, quando esses mesmos lençóis são estendidos no varal. Até finalmente tingir a roupa do pai.  Vermelho representando o abraço, o colo, o amor.

O caminho que a filha imagina para encontrar seu pai mais uma vez tem uma passagem secreta, feita por lençóis vermelhos com estampa de folhas alaranjadas. Feita especialmente para ela. Mas os lençóis secam, são dobrados e guardados. 

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Então a mãe fala: “Eu também quero te contar uma coisa”. Surge uma nova cor nessa narrativa cinza de tanta saudade.

Queria agora poder dar um abraço em María Wernicke por ter escrito um livro tão lindo.

Mas, por enquanto, apenas coloco o livro novamente na estante, desejando que na próxima vez que eu o buscar para ler, a narrativa dos nossos dias esteja menos cinza.

Certos dias

texto e ilustrações: María Wernicke

tradução: Ana Busch e Caio Vilela

Editora Casa Amarelinha

​isbn 978-85-66637-16-8

48 páginas

21 x 14 cm

​Livro-álbum

para leitores de todas as idades