Era uma vez uma casa, 

de Dagmar Urbánková

Leitura de Dani Gutfreund

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Era uma vez uma casa. Que casa é essa? É a casa do botão do bolso que carrega o livro? Era uma vez uma casa que, quando abro o livro, tem porta de entrada. E a porta está aberta. Lá dentro tem luz. E o que faz o peixe da capa do livro ali em cima da porta? Preciso ver: vou subir as escadas desse livro-casa, enquanto penso com meus botões. 

 

Viro a página e os mistérios continuam a aparecer: aonde será que aquele mergulho vai me levar? Ir adiante no livro é como ir cada vez mais fundo e, assim, descobrir uma nova surpresa: água, peixe, jardim, árvore, fruta, casa, semente. É impossível não pensar em Alice. Há sempre algo que não estamos vendo, um detalhe, algo escondido que guarda uma coisa ainda maior. A semente que é também um barco à deriva é pura poesia: acolhe e conduz por um tempo que não parece ter fim. Mais algumas páginas e, de repente, nos percebemos dentro do livro que havíamos aberto lá no começo. Será que estamos no bolso?

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Cada virada de página é como abrir uma porta – ou dar um mergulho. Era uma vez uma casa, de Dagmar Urbánková, em uma brincadeira divertida e extremamente poética, fala sobre a leitura, fala sobre o livro como um tesouro cheio de segredos a serem desvendados ou guardados no não-saber. E vai do grande ao miúdo, do miúdo ao maior até que ali encontramos algo que não tem tamanho. Dentro do livro tem um bolso, dentro do bolso tem um livro, quando se abre o livro se encontra uma porta, um mergulho, um jardim e a vastidão do universo, onde há uma menina. Ela tinha um livro em um bolso, uma pera no outro. Lê o que percebemos ser o mesmo livro que estamos lendo. E come a pera. Bem alimentada, avistou uma casa: será a mesma casa?  

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O livro-álbum tem um quê (maiúsculo!) de Matrioska, aquela boneca russa de madeira, porque toda virada de página guarda um segredo – ou tantos – e, a cada leitura, descobrimos novas possibilidades e significados. Urbánková parece entender muito bem dessa linguagem composta pela trama de palavras, imagens e o livro em si. Não é à toa que Era uma vez uma casa explora o objeto, não dá lugar a excessos e coloca todos os holofotes na narrativa, tecido resultante da trama precisa das poucas (e tão bem escolhidas) palavras que ressignificam e intensificam as imagens e o próprio objeto.

Um livro que cabe no bolso e ocupa a palma da mão. Na capa, tudo o que vemos é parte de um casaco, o seu bolso e, dentro dele, um livro que tem um peixe na parte superior da capa. Há também alguns botões, todos em suas casas. A ausência do título e do nome da autora na capa anunciam certo mistério – calma, eles estão lá, na lombada, deixando todo o espaço da capa para o bolso com o livro e as casas com seus botões. Todo paratexto é separado dessa história cíclica: eles não entram no bolso ou no livro, que dá voltas sobre si mesmo. No verso da capa, a primeira linha de texto, que é também o título – talvez porque não tenha título, apenas história? – “Era uma vez uma casa.” E lá está a casa e aquela escada que nós, leitores, subimos para esta leitura. 

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As gravuras coloridas por cores-luz primárias dão a nota, e o verde aparece como se dissesse que podemos fazer algo de diferente com tudo aquilo. Será que é por isso que as páginas à vista na capa são verdes? Cada leitura leva para um lugar e o olhar de um sobre o de outro cria algo novo que, individualmente, não poderíamos ver. 

Se dentro do peixe há um jardim, dentro de Era uma vez uma casa há uma vastidão de mundos possíveis – ou nem tão possíveis assim–,  como é de se esperar de uma grande obra poética.

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Era uma vez uma casa

texto e ilustrações:Dagmar Urbánková

tradução: Dana Stopková

Editora Ameli

​isbn 978-85-85166-07-6

32 páginas

14 x 12 cm

​Livro-álbum

para leitores de todas as idades

​R$ 27,00

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imagens cedidas pela editora.