O menino que virou chuva, 

de Yuri de Francco e Renato Moriconi

Leitura de Dani Gutfreund

Nestes dias tenho pensado muito na flexibilidade do livro-álbum, em como esse livro é capaz de absorver – enquanto se transforma – diferentes formas, gêneros, discursos. Não é à toa que haja tanta discussão sobre sua definição, nomenclatura e manifestações. E ele sempre estende as delimitações, nos mostrando que, talvez, os limites existam apenas para que percebamos uma possibilidade que ainda não conseguimos ver, um impulso para testar o terreno e ver se é possível ir mais além, que as fronteiras não são apenas fim, mas também começo.

Quando O menino que virou chuva, de Yuri de Francco e Renato Moriconi, chegou aqui no Lugar de Ler, pensei na hora em uma frase que o Paul Auster falou em uma palestra há milênios: “a coincidência nada mais é do que o acaso se esfregando no desejo”, ele disse, certamente com muito mais poesia do que escrevo. Estava louca para ver o livro, porque ele anunciava algo novo. Não porque o menino chove, uma imagem sem dúvida bonita, mas porque intuía que esse livro daria o que pensar.

O livro afirma que forma é conteúdo. O projeto gráfico, também assinado por Moriconi, oferece ambos em total interdependência – tudo na obra significa. E, penso, não é precisamente isso o livro-álbum? Um objeto literário em que todas as partes convergem para a tessitura de sentido? E que, por sua natureza tão livre, é capaz de abrigar o que quer que seja necessário para esse fim?

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O menino que virou chuva é um livro que vem com bula, logo no início, uma pausa na narrativa já começada para que se prescreva como usá-lo. É curioso que não se diga quando a receita deve ser aplicada, mas é porque isso depende da percepção do leitor. Voltemos ao início do livro, que na capa anuncia uma tempestade interna. Ao abri-la, uma dupla, carregada de silêncio, apresenta os personagens, nos contando sobre o menino, aquele mesmo que chovia na capa. Ele, no canto da página direita, e uma nuvem carregada na outra extremidade. A sombra da nuvem, direta e pesada, discute com a do menino, menor. Tudo isso em uma imensidão azul. Interrompida por formalidades – ficha de créditos e falsa folha de rosto –, a curta sequência continua. Praticamente a mesma imagem: o menino não mudou de posição, porém a nuvem se aproxima, já quase chegando ao meio da página. Nova interrupção e, aqui, meu desejo é que todos os paratextos abrissem caminho para a narrativa. Viro a página depressa, as informações técnicas podem ficar para depois. É quando encontro a imagem, agora isolada na página da direita. A nuvem avançando sobre o menino: suas sombras anunciam que são um só. O prefácio, silencioso, alonga o tempo de entrada na história, lentamente nos mostrando a tempestade de uma nuvem só que se aproxima. 

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Depois da folha de rosto, lemos na página esquerda: “O menino chorava”, enquanto, na página direita, o menino, sem rosto, nos encara. A nuvem, agora, está quase totalmente sobre ele. As pinceladas em evidência dão a sensação de fluidez ou, talvez, de algo se dissolvendo. Viramos a página e nos deparamos com a cabeça do menino coberta pela nuvem: ele é chuva. O texto, ainda na esquerda, conta que “de tanto chorar” virou chuva. Na página direita, como legenda da imagem, um pouco mais de texto reitera a frase. A partir desse momento, as palavras migram para a direita, deixando a página esquerda em branco. Uma deixa? Pode ser, mas só pegando o livro em mãos para saber como e quando agir. 

Agora, palavras e imagens se fundem em um mesmo movimento. Tudo chove no livro, tudo nos leva, rapidamente, a uma tempestade, a um furacão. E, como, daí em diante, o livro pede um ritmo mais rápido, Moriconi coloca um flipbook dentro do livro, que só termina, quando vem a calmaria. E ela sempre vem. 

Contando com a atuação do leitor, o livro leva a virada da página ao extremo: é a rapidez do passar das páginas que mescla as palavras e as imagens – e assim lhes dá sentido –, acelerando a passagem do tempo quando necessário, e proporciona uma experiência de leitura muito particular: ele acompanha a distante e lenta formação da tempestade, não consegue se proteger da intensidade da chuva que aumenta em ritmo acelerado e o obriga a passar as páginas mais velozmente, até que sossega, quando o sol desponta e encontra serenidade. O ritmo da leitura é análogo ao sentimento que inunda o menino, vai se aproximando de mansinho até que o toma por inteiro, se transformando a cada instante em algo cada vez maior, mais incontrolável, até que, o ritmo diminui novamente, e apresenta algo novo.

O menino que virou chuva convida o leitor para uma aventura literária bastante peculiar, em que o que está em jogo é a forma como o livro conduz e subverte as ações implicadas na leitura.

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O menino que virou chuva

texto:Yuri de Francco

ilustração: Renato Moriconi

Editora Caixote

​isbn 978-65-8666-601-4

144 páginas

15,5 x 21 cm

​Livro-álbum

para leitores de todas as idades

​R$ 48,00

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imagens cedidas pela editora.