Paulo Fehlauer

Foto e palavra, escritas e fantasmas

Na faculdade de Jornalismo, Paulo se interessou pela Fotografia por pura curiosidade. Logo se encantou não só com o ato de fotografar, mas com as possibilidades que isso lhe trazia: a fotografia o levava em direção ao mundo, o colocava em contato com pessoas e lugares, o que era um convite irresistível para um jovem estudante recém-chegado de Palotina, no interior do Paraná, com a mochila nas costas. ”Não dá para ser fotógrafo sentado na poltrona, sem sair para a rua. A fotografia me obrigou a olhar para fora, mais do que para dentro”, diz.  

Não demorou para Paulo atravessar fronteiras. Foi para Nova York, onde morou por dois anos. “Lá comecei a montar um repertório de referências que já apontavam para esse contato entre linguagens, saindo um pouco do foco documental do Jornalismo”, diz.

                                           foto: Juan Esteves

De volta ao Brasil, começou a participar do Coletivo Garapa (https://garapa.org), desenvolvendo uma pesquisa narrativa intensa, que tensiona as fronteiras do documentário e da representação. “Foi quando comecei a elaborar um pensamento crítico sobre a imagem”, diz.

Hoje, ele foca seu interesse principalmente no potencial narrativo da imagem. “Acho curioso que tenhamos passado tanto tempo discutindo o caráter referencial da fotografia, quando desde sempre soubemos que ela é pura ilusão, pura indeterminação. Cabem muitas ficções dentro de uma única imagem”, diz.

Era natural então que ele se voltasse também para o texto. “Comecei a participar de diversas oficinas de criação literária e fiz a Especialização em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. Atualmente faço mestrado em Estudos Literários, com orientação da escritora Paloma Vidal, e vou publicar um romance no final do ano. Agora é a fotografia que passa a influenciar a literatura”, diz.

Nesse jogo, Paulo descobriu que cada aproximação que se propõe entre palavra e imagem cria uma relação nova, que só se completa no momento da leitura. Então as formas são virtualmente infinitas. “Nos jornais diários, a fotografia costuma ter uma função acessória, funcionando, na maioria das vezes, como ilustração do texto. Mas até mesmo nessa relação aparentemente superficial há um atrito. Quem abriu o meu olhar para as possibilidades inventivas do encontro entre literatura e fotografia foi o escritor alemão W.G. Sebald, autor de Austerlitz e Os Anéis de Saturno, entre outros. Há imagens em todos os seus livros, e cada uma propõe um contato diferente com a matéria textual que a envolve. Às vezes, a imagem referenda o texto; noutras, coloca-o em dúvida; noutras, ainda, coloca em questão a própria autoria da obra. No meu curso, a ideia é partir dessa enorme variedade para pensar caminhos possíveis - e inventar novos”, diz. Segundo Paulo, não se trata de procurar palavras para traduzir imagens, ou vice-versa: a proposta do curso é a de explorar justamente aquilo que se esconde nos interstícios entre literatura e fotografia, texto e imagem. “Nós estamos acostumados a pensar o limite como ponto de chegada, a fronteira onde algo termina, ideia que é muito bem ilustrada pela imagem da terra plana medieval. Além da borda estaria o abismo, habitado pelas bestas. É preciso um olhar oblíquo, desconfiado, para inverter o sinal dessa percepção. E quem me deu essa chave foi o crítico indiano Homi K. Bhabha, no livro O Local da Cultura. Ele afirma que os limites das ideias dominantes "são também as fronteiras enunciativas de uma gama de outras vozes e histórias dissonantes". 'Eu é um outro', diz Rimbaud”, conclui.

Foto de Paulo Fehlauer

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