O livro dos acertos

Entrevista com Corinna Luyken

Por Janette Tavano

Tudo começou com um erro. Ao lado dessa frase, vemos surgir uma imagem, o rascunho de um rosto, que tem um pequeno erro, que depois vira um erro maior, mas que depois vira outra coisa e... pronto, já não conseguimos mais desgrudar do livro The Book of Mistakes [O livro dos erros, inédito no Brasil], da ilustradora norte-americana Corinna Luyken. Viramos uma página depois da outra, participando do jogo de certo e errado que nos faz abrir cada vez mais os olhos, rir, suspirar, procurar. Quando chegamos no fim, a vontade é de começar tudo de novo, seguindo mais uma vez os traços de Corinna e desvendando novas leituras. The Book of Mistakes é um daqueles livros que desafiam classificações e catalogações, porque ele é para todos os leitores, de todas as idades. Nesta entrevista exclusiva para o Lugar de Ler, Corinna nos conta sobre seu processo criativo, seus erros e a finalização dessa obra, com certeza, um grande acerto.

Corinna Luyken é ilustradora e autora do livro The Book of Mistakes, que ganhou uma Menção Especial na categoria “Opera Prima” na última feira de livros infantis de Bolonha, que aconteceu em março de 2018. Essa categoria de prêmios é reservada para trabalhos de autores ou ilustradores que publicam pela primeira vez. Ela mora e trabalha perto do litoral do estado de Washington, nos Estados Unidos, com a filha, o marido e dois gatos. Além de desenhar e pintar, o que mais gosta de fazer é surfar! Também adora jardinagem, cozinhar e ler para a filha. E caminhar! Tem ideias maravilhosas enquanto caminha.

Lugar de Ler: Quando começou a desenhar e se interessar por livros infantis?

Corinna: Sou uma ilustradora autodidata, embora tenha feito algumas aulas de gravura na faculdade. Foi só depois da faculdade que percebi que o que eu realmente queria fazer era ser ilustradora e autora de livros-álbum. O gerente da livraria em que eu trabalhava quando estava acabando a escola me deu um livro, um dia, dizendo: “Você vai amar este livro”. Era o The Very Persistent Gappers of Frip [Os tão persistentes mascotes de Frip], de George Saunders e Lane Smith. E ele tinha razão. Eu fiquei toda arrepiada a primeira vez que li. E li de novo, e de novo, pensando, “será que eu consigo fazer um livro?”

Mas isso foi há dezessete anos! Durante todo esse tempo, trabalhei (muito) como garçonete, dei aulas de arte para crianças e, finalmente, me tornei mãe. Enviei histórias para editores e colecionei um belo monte de cartas de recusa. Tem até uma da Editora Dial , que agora publicou The Book of Mistakes. Foi apenas há uns cinco anos que percebi que, se não dedicasse toda a minha atenção para os livros, não conseguiria criar. Parei de tricotar, de ir a mercados de pulgas e de reformar móveis. Interrompi quase todas as minhas atividades criativas que não estivessem relacionadas a livros-álbum e a minha filha. Também me inscrevi na SCBWI [Sociedade de Escritores e Ilustradores de Livros para Crianças], comecei a ir a conferências e a conhecer pessoas fora da minha pequena comunidade. Assim, passei a fazer conexões com o setor, o que acabou me levando ao meu agente, Steven Malk, da Writers House [Casa dos escritores, uma agência literária muito conceituada].

Lugar de Ler: E durante a infância, qual era seu contato com os livros?

Corinna: Cresci em uma casa cheia de livros. Minha mãe adorava poesia e compartilhou seu amor pelo som da língua comigo desde muito cedo. Quando eu era menina, ela lia para mim o Rootabaga Stories [Histórias de Rootabaga], de Carl Sandburg. Era um livro grosso, com uma capa de tecido vermelha, repleto de histórias estranhas e de desenhos em nanquim detalhados, feitos por Maud e Miska Petersham. As histórias eram agrupadas por temas – Três histórias sobre modos como o vento começou a ventar e Quatro histórias sobre o profundo tormento das portas escuras. Eram absurdas e lindas, estranhas, bobas e tristes. E nós amávamos todas elas. Líamos nossas favoritas – por exemplo, Como eles trouxeram o vilarejo de bolinhos de creme de volta depois de o vento tê-lo assoprado longe — repetidamente, rindo toda a vez por causa da tolice do som das palavras.

Lugar de Ler: Você disse certa vez, em uma entrevista: “Com a leitura aprendi a amar o som da língua, mas também aprendi algo sobre olhar mais profundamente.” Você poderia falar mais sobre isso?

Corinna: Lembro que quando era menina, olhava livros-álbum e percebia que uma mágica acontecia quando as palavras se juntavam às imagens. Às vezes, elas concordavam, outras, se contradiziam. E, às vezes, as imagens traziam novas camadas de significado ou uma história adicional para o que as palavras diziam. Em What Do People Do All Day [O que as pessoas fazem o dia todo], de Richard Scary, havia tantas histórias que existiam apenas nas imagens! Desastres que você poderia ver se desenvolvendo, como Able Baker Charlie, o padeiro ratinho que colocou fermento DEMAIS na massa. E, em outros livros, como os da Miss Nelson, de James Marshall, havia dicas escondidas nas imagens do que realmente estava acontecendo na história, de forma que, se você só lesse as palavras, não saberia o que estava acontecendo, mas ao observar atentamente as ilustrações, descobria que Miss Nelson, a adorada professora que estava desaparecida, era suspeitosamente parecida com a professora substituta. Tudo isso me ensinou a observar cuidadosa e profundamente. Quando criança, ouvir alguém lendo permite que a gente se sente e OLHE, e perceba coisas. Você está simultaneamente absorvendo a história enquanto ela é lida e também desvendando as imagens à sua frente. Para mim, isso sempre foi mágico. 

Também acho que essa é uma habilidade muito importante e útil no mundo de hoje, em que a propaganda está ao nosso redor o tempo todo. E em que constantemente as palavras e imagens que nos rodeiam nos dizem como pensar e o que querer. Acho incrivelmente importante para as crianças aprenderem a ler imagens e a pensarem cuidadosamente sobre o que estão falando. E os livros-álbum são os primeiros a fazer isso.

 

Lugar de Ler: The Book of Mistakes é seu primeiro livro autoral: você poderia nos contar sobre seu processo criativo? Como surgiu a ideia? Seus próprios erros a inspiraram?

 

Corinna: The Book of Mistakes começou a partir de uma série de erros. Eu costumava desenhar com caneta, porque gosto de ver como uma linha pode assumir vida própria com caneta. Mas essa vida própria, muitas vezes, levava para formas e marcas que eu não queria e não podia apagar. Já que adorava desenhar com tinta, aprendi a lidar com esses acidentes. Se eu fizesse uma bobagem no rosto, desenhava uns óculos. Se não gostasse de como saiu a mão, podia colocar uma luva nela. E, em um determinado momento, aprendi a curtir como cada erro me forçava a achar novos modos de olhar para o mundo. E comecei a pensar se isso poderia ser ensinado.

Lugar de Ler: Ensinado como?

Corinna: Quando trabalhava como professora assistente e era artista residente em escolas de educação fundamental, me dei conta de um padrão. Em cada classe, sempre havia uma ou duas crianças que, depois de uns minutinhos que começavam a desenhar, já levantavam a mão pedindo outro papel. Elas não gostavam do que tinham começado a criar. Queriam começar de novo. Queriam que fosse perfeito. Comecei a pensar se poderia ensinar-lhes a ver possibilidades naquele erro – ver como elas poderiam continuar e transformar seus desenhos ou pinturas em algo de que pudessem gostar.

Isso também aconteceu em casa, quando minha filha fez quatro anos. Naquela época, ela adorava tudo o que desenhava. Não via erros – apenas padrões, linhas, cores e texturas. E amava desenhar. Um dia, estava desenhando e, de repente, começou a chorar e jogou o papel no chão. Ela tinha errado e não conseguia consertar o erro. Fiquei com o coração partido. “Ainda não”, me lembro de ter pensado. “Não ela. Não tão cedo. Não agora.”

Foi então que escrevi The Book of Mistakes. Para ela. Para mim. Para qualquer pessoa que já cometeu um erro.

Lugar de Ler: Quanto tempo levou para que The Book of Mistakes ficasse pronto? Você poderia nos contar sobre o processo de uma ideia se transformar em um livro?

 

Corinna: The Book of Mistakes levou dois anos para ficar pronto. Foram catorze bonecos. O primeiro que eu enviei para o meu agente Steven Malk tinha metade do tamanho do livro atual. Nessa versão, a história terminava com uma garota, uma festa e uma árvore de pétalas cor-de-rosa. Steve disse que amava o começo, mas que o final ainda não estava bom. Levei um ano para encontrar um final mais satisfatório. Durante esse tempo, o livro dobrou de tamanho. E aprendi algumas coisas muito importantes sobre o meu processo de ilustradora-escritora: saber escutar, confiar no trabalho e, finalmente, encontrar o caminho para sair da escuridão.

Há uma entrevista com Kate DiCamillo [autora de A extraordinária jornada de Edward Tulane e A História de Despereaux, publicados pela WMF Martins Fontes], que ouvi várias vezes enquanto trabalhava nesse livro. Ela diz: “Eu sinto que a história sabe mais do que eu. A história é mais inteligente do que eu (...). Estou em um território diferente. Mas já faço isso há tempo suficiente para saber que o que realmente quero é estar em um território diferente. Porque é aí que está toda a sabedoria, nessa história que quer ser contada, e não na história que eu contaria”. Para mim, esse processo de ouvir a história que quer ser contada me fez ver que, primeiro, o final antigo tinha mesmo que mudar. E com isso, algumas imagens que eu amava, como a de um garoto com os dedos extra-largos, também desapareceram.

Steve sugeriu que com essas imagens (que ele também amava), eu estava começando a me repetir. Logo percebi que era verdade. Comecei então a experimentar. Para mim, isso significava desenhar muito. Tentei diferentes maneiras de fazer a árvore e diferentes maneiras de fazer a garota. Eu sabia que ela precisava estar carregando algo, então fiz uma cesta, um carrinho, cupcakes, um jarro, um cinto de ferramentas... mas nada dava certo. Então desenhei mais árvores. Toda a vez que eu travava, desenhava outra árvore, esperando uma pista no desenho que me ajudasse a encontrar o caminho.

Mas tudo ficava complicado novamente e tinha que voltar para a garota. E redesenhei o livro inteiro com ela vindo de outra direção.

Mas continuava não funcionando e, às vezes, eu me perguntava se a solução não estaria nas palavras. No entanto, eu tinha a sensação de que eram as imagens que me ajudariam a terminar a história. Então voltava a esboçar. Lentamente, fui chegando mais perto. Um dia, percebi que estava protegendo a garota. Eu a consertava porque gostava dela, não queria estragá-la de novo. Assim que percebi isso, soube que ela precisava de um erro maior. Foi só começar a brincar com tinta em uma escala maior, que entendi como tudo se encaixava. O resto da história veio facilmente depois disso.

Lugar de Ler: Você acha que cada livro define seu próprio material?

 

Corinna: Sim! Muito! O livro em que estou trabalhando agora (meu próximo autoral, chamado My Heart, My Heart [Meu coração, meu coração] é todo em lápis e monotipia. Por ser uma história muito doce – é um poema sobre o coração, com ritmo e rima –, a ilustração implorava por algo diferente. Experimentei muitas opções e, no final, acabei escolhendo esse processo de gravura muito rudimentar, em que cada imagem é única e imperfeita. Tem sido bem divertido trabalhar com uma linguagem diferente: a gravura traz muitas possibilidades e espaço para erros interessantes quando você coloca tinta em uma superfície e passa para outra!

 

Lugar de Ler: Com que materiais você geralmente trabalha? Li que você gosta muito de tinta. Você disse que usou tinta em The Book of Mistakes “porque quando se erra com a tinta, dá uma sensação de permanência”. Você poderia falar mais sobre isso?

 

Corinna: Sempre adorei trabalhar com tinta e aquarela. Gosto do fato de serem tão fluidas – e, também, de como são difíceis de controlar. Amo o modo como a aquarela se expande e desvia, como tem uma vida própria no papel. Mais recentemente, tenho usado lápis escuros: 4B, 6B, 8B. Não poder apagá-los totalmente é demais: sempre deixam manchas, algumas memórias visíveis de seus primeiros pensamentos e impulsos no papel.  

 

Lugar de Ler: Você poderia nos contar um pouco sobre a experiência de fazer um livro-álbum? A relação entre imagem e texto é determinante: o que é dito, o que permanece em silêncio. Como você vê isso?

 

Corinna: Para mim, os melhores livros-álbum são aqueles em que as palavras e as imagens não dizem a mesma coisa, mas trazem novas contribuições para a história. A mágica está nisso! É uma das coisas que mais amo sobre essa forma de arte: isso e o fato de que são as crianças que estão dando sentido para esse mundo (e seus adultos também).

Lugar de Ler: Você sabe como as crianças reagem quando leem seu livro? Tem esse retorno? Poderia nos contar algumas experiências que tenha tido ou das quais teve notícias?

Corinna: The Book of Mistakes me surpreendeu, pois possibilita uma leitura compartilhada maravilhosa. Alguns pais e professores também disseram que o livro conquista crianças de 4 anos, adolescentes e adultos de todas as idades. Quando visito escolas, há um momento, durante a leitura, que adoro: é perto do final, quando o livro está tomando distância e vemos pela primeira vez a parte superior dos óculos verdes da menina. Algumas crianças veem isso imediatamente e suspiram, e, de repente, a classe inteira está olhando de perto, tentando enxergar o que as outras viram. É incrível assistir a essa onda de entusiasmo no rosto delas, conforme vão descobrindo a menina por si mesmos.

Lugar de Ler: Quem são seus autores favoritos de livros para crianças e por quê? Você poderia também nos dizer que livros a tocaram mais? Há algum que possa chamar de grande favorito?

 

Corinna: Muitos dos trabalhos que realmente me inspiram são absurdos ou, por falta de uma palavra melhor, profundos. E quando um livro é essas duas coisas, tenho uma resposta física: meu coração acelera. Se tivesse que escolher os quatro livros que mais me influenciaram, provavelmente citaria: Extra Yarn [Novelo extra], de Mac Barnett; The Art of Lisbeth Zwerger [A arte de Lisbeth Zwerger], de Lisbeth Zwerger;  além de The Very Persistent Gappers of Frip e Rootabaga Stories, que já mencionei anteriormente. Em seguida, Where The Sidewalk Ends [Onde termina a calçada], de Shel Silverstein; Snow [Neve], de Uri Shulevitz; Migrant [Migrante], de Maxine Trottier e Isabelle Arsenault; Owl at Home [Coruja em casa], de Arnold Lobel; The Other Way to Listen [O outro modo de ouvir], de Byrd Baylor e Peter Parnall; Onda, de Suzy Lee; e a poesia de Carl Phillips, Yehuda Amichai, E. E. Cummings, Issa e Mary Oliver.

Pensando em ilustradores, tenho tantos favoritos! Uma pessoa cujo trabalho me toca profundamente é Isabelle Arsenault. Outros favoritos incluem Sydney Smith, Carson Ellis, Jillian Tamaki, Jon Klassen, Christian Robinson, Catia Chien, Olivier Tallec, Julie Morstad, Jon Agee, Jen Corace, Erin Stead e Beatrice Alemagna. Mas, há tantos outros!!

Lugar de Ler: Há planos de publicar The Book of Mistakes no Brasil? E em outros países?

 

Corinna: Sei que os direitos foram vendidos para tradução em português, mas ainda não sei quando sairá nem em quais países (no caso, o Brasil). O livro também foi publicado em coreano, chinês, turco e espanhol.

 

Lugar de Ler: Você tem outros projetos? Pode nos contar um pouco sobre eles?

Corinna: Meu próximo livro, Adrian Simcox Does NOT Have A Horse [Adrian Simcox NÃO tem um cavalo], escrito por Marcy Campbell, será publicado em agosto. É essencialmente uma história sobre bondade e empatia. Com alguns cavalos escondidos espalhados pelo livro! Também é ótimo para leitura compartilhada. Segue a descrição do editor: “Adrian Simcox conta a quem quiser ouvir que ele tem um cavalo – o melhor e mais bonito cavalo que já existiu. Mas Chloe não acredita nele. Adrian Simcox mora em uma casinha pequena. Onde o cavalo ficaria? O sapato dele está cheio de furos. Como poderia ter comprado um cavalo? Quanto mais Adrian fala do seu cavalo, mais brava Chloe fica. Mas, quando ela berra com ele e mesmo quando reclama dele com a mãe, Chloe não consegue o que quer. Ela ganha algo muito mais importante…”

​Você vê o cavalo na capa do livro ao lado?

Imagens cedidas pela autora

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