Um Bem Precioso

Natália Gregorini

 

Madalena é o primeiro livro autoral de Natália Gregorini. É a história de uma avó e sua neta. 

Aqui ela conta sobre esse projeto autobiográfico, que foi tomando forma ao longo de seu mestrado e que une a técnica da gravura às características do livro ilustrado, revelando uma autora ousada e talentosa.

Madalena é uma publicação da editora Livros da Matriz.

Madalena: 

Primeiro capítulo

“Madalena era minha avó. Ela cuidou de mim e da minha mãe durante uma parte da minha infância. Foi morar um tempo com a gente em Vilhena, Rondônia, onde nasci, e depois em Concórdia, Santa Catarina. Me lembro de voltar da escola e ter um prato de arroz e feijão com vinagre e ela sentadinha à mesa, me esperando. Assistíamos novelas juntas. Quando eu saía pra brincar, trazia flores da rua pra ela. Quando eu já era mais velha, sempre que falávamos por telefone, ela chorava, emocionada. Eu a visitava de tempos em tempos, longos tempos. Já não sentia tanta saudade quando estava longe, mas perto dela eu ficava muito comovida. Mexia demais comigo, ficava triste e muito feliz ao mesmo tempo. Sentia como se eu tivesse um bem precioso que permanecia na sua cidade, longe de mim, mas que eu podia ir visitar a qualquer momento. Então, de repente, ela já não estava mais lá.

Para me conectar com ela, passei a buscar as sensações trazidas pelas memórias. Os cheiros, como o da mexerica, os rituais, como o do chimarrão.

Durante o processo de criação do livro, entendi o quanto ela faz parte de mim. Eu não percebia isso antes, pelo menos não de forma consciente. Hoje, quando minha mãe usa os panos de prato que eram dela ou prepara as suas receitas, como o maravilhoso pé-de-moleque, sinto como se estivéssemos todas

juntas, minha avó, minha mãe, minhas irmãs e eu. É um sentimento muito forte e poderoso.

 

Eu queria que o livro trouxesse esse sentimento.

Foi um processo cheio de altos e baixos. Eu não fazia ideia de quão fundo eu estava mergulhando na minha história quando decidi começar este livro. Fiquei bastante tempo presa nas memórias e na frustração de não lembrar tanto assim da minha avó e, por consequência, com um bloqueio criativo que durou alguns meses. 

Então, peguei fotografias dela e as redesenhei, o que ajudou a me reaproximar da minha avó e começar a construir a personagem Madalena. Nessa época, o livro A louca da casa, da Rosa Montero, revitalizou minhas ideias. O seu último capítulo me resgatou das memórias bagunçadas e mostrou que eu precisaria de um distanciamento para poder escrever essa história.  É como o conto do José Saramago [O conto da ilha desconhecida]: é preciso sair da ilha para ver a ilha. Entendi que precisaria transformar Madalena e a mim mesma em personagens, olhar de fora para conseguir criar a nossa história.”

 

Os desenhos:

o começo de tudo

“Tenho um caderno com desenhos que fiz da minha avó em 2013, a última vez que a gente se viu. Nele, tem também uma ilustração da cozinha da sua casa, que me fascinava desde criança. Aqui cabe contar uma história que aconteceu um ou dois anos antes dessa data. Fui para o Paraná para o casamento de um primo e nessa estadia registrei tudo o que pude da vó Madalena. Fiz gravações em vídeo, retratos dela em aquarela, desenhos, enfim. Acho que depois de entrar na graduação em Artes comecei a entender a preciosidade desses registros. Mas nessa mesma viagem minha mochila foi roubada com todo esse material. Foi como se eu tivesse perdido parte da minha história. Quando voltei a visitá-la em 2013, quis fazer outros desenhos. Imagino que o livro Madalena tenha surgido ali, no desejo de guardá-la comigo da forma como eu melhor guardo as coisas, que é desenhando. Quando ela morreu, eu estava em Portugal estudando ilustração e gravura. Foi quando senti, pela primeira vez, vontade de fazer um livro sobre ela, mas ainda não sabia como.

Algum tempo depois, em 2015, já de volta a Campinas, me mudei da casa da minha mãe. Foi um momento bem importante de amadurecimento, pessoal e profissional. Nessa época comecei a participar de encontros com o ilustrador Odilon Moraes no ateliê da Daniela Galanti, quando aconteciam discussões muito interessantes sobre projetos de livro ilustrado. A Dani, a Marina Faria e a Natália Mazon foram pessoas muito importantes em todo esse meu caminho; estudávamos juntas o livro ilustrado. Esbocei então uma primeira ideia da história do Madalena. Queria falar sobre como era um dia da vida da minha avó, desde o seu acordar até a hora de ir dormir. Mas as ilustrações estariam mostrando o meu dia e, em alguns momentos, como na preparação do chimarrão pela manhã, nossas rotinas se encontrariam. No início do livro, já surgira a dúvida: o texto falaria da menina mostrada na imagem ou não? Vejo ali a semente desse projeto, que já era essa memória presente como parte de mim e como ritual na minha vida. A ideia ficou guardada.”

 

O mestrado:

quando a ideia ganhou forma

“Quando entrei no mestrado, no Instituto de Artes da Unicamp, meu objetivo era criar um livro chamado Os observadores do mundo –nome que dei ao projeto do mestrado e que também seria o título do livro. Esse trabalho previa que eu pudesse explorar diversas formas de interação entre texto, imagem e o objeto livro. Imaginava um livro em volumes; cada um seria a história de um personagem velho que contaria um causo que revelasse algo sobre sua personalidade – aqui entraria a relação entre a imagem, o texto e o objeto. Minha avó Madalena, por exemplo, era uma das personagens: pelo fato de ela não saber ler nem escrever e, em minha memória, carregar um imenso silêncio no olhar, eu queria que a sua narrativa fosse só de imagens. Havia outro personagem também muito silencioso, o Akin, um faroleiro que nunca saía de seu farol-ilha a não ser para navegar no mar. Pretendia fazer a história dele em quadrinhos, também sem texto. Nas histórias em quadrinhos é possível explorar o tempo da narrativa de maneira diferente à do livro ilustrado; eu poderia desenvolver uma história mais longa e com um ritmo rápido. 

Comecei a pesquisa pela história da minha avó. Eu precisava falar sobre ela; era a personagem que estava mais forte nos meus pensamentos. Como podem imaginar, percebi que meu projeto era megalomaníaco para dois anos de pesquisa. Além disso, quando comecei a mergulhar na vida da minha avó, senti que precisava olhar com atenção para essa história que já estava nascendo na minha imaginação, e o projeto inicial do mestrado já não me parecia mais fazer sentido.

Fui buscar em mim a imagem que precisava conhecer para falar da Madalena. Não tinha uma história, só um monte de memórias bagunçadas e o desejo de criar. Fiz um desenho

dela sentada na sua varanda tomando 

chimarrão que me acompanhou durante algum tempo. Numa disciplina da professora Luise Weiss [orientadora de Natália], decidi experimentar gravar essa imagem no metal. A gravura, especialmente a que é feita em metal, pede um tempo muito específico de produção: preparar a placa de cobre, gravar o desenho, imprimir e então ver pela primeira vez a estampa, a imagem real que a gravura produz. Depois da prova, é preciso retrabalhar a matriz, imprimir de novo, e assim por diante. Eu achava que tudo isso me faria mergulhar naquela imagem e encontrar a história que estava procurando. Só que a primeira impressão ficou bem ruim! Fiquei frustrada. Mas na impressão da segunda prova eu tive um “clic”! Me lembrei de uma das coisas que mais gostava na gravura em metal, que era ver a progressão da imagem surgindo a cada prova. Era a narrativa de como uma imagem se constrói na gravura. Tentei então separar aquela imagem em elementos que eu queria que aparecessem um de cada vez na sequência das imagens. As ideias começaram a nascer em um ritmo muito mais rápido do que o processo de gravura em metal me permitia realizar. Voltei então para outra técnica que amava e que me aproximava do processo do metal: a matriz em embalagem longa vida, que me trouxe não só a agilidade que precisava para testar as ideias, como todo um outro universo que se incorporou, mais à frente, à narrativa. Foi a partir dessa primeira sequência de gravuras que comecei a esboçar o storyboard de fato. Tudo isso para falar que o processo criativo é um caminho muito misterioso e particular, mas acredito que isso é algo comum à maioria dos artistas: as soluções vão surgindo a partir do próprio trabalho. Precisamos estar inteiramente presentes e atentas para poder receber. O Madalena surgiu, então, primeiro na pesquisa gráfica para depois dar lugar à narrativa.”

 

O Percurso:

o encontro entre gravura e livro ilustrado

“É difícil contar meu percurso de maneira linear, até porque tive muitos encontros maravilhosos que foram me mostrando caminhos e me inspirando. Eu desenho desde sempre. Minha mãe achava importante que eu tivesse contato com a arte. Quando entrei na graduação em Artes Visuais, em 2010, na Unicamp, ainda não sabia que queria trabalhar com ilustração, mas só porque não sabia que essa profissão existia. Na época, eu postava meus desenhos numa página do flickr e no facebook. Assim, começaram a aparecer os primeiros trabalhos relacionados à própria faculdade, como fazer cartazes para colegas da música, capas de CD, ilustrações para apresentações de dança etc. Meu primeiro trabalho de ilustração para fora desse universo universitário foi um calendário para uma clínica médica. Muito inspirada por uma amiga, a Natália Mazon, fiz uma iniciação científica para pesquisar os livros-imagem e usei o dinheiro que recebi pela bolsa para pagar cursos nessa área. Assim conheci o Odilon e passei a estudar o conceito de livro ilustrado mais profundamente. Nessa época também descobri o trabalho da ilustradora Marina Faria, que me fez ter a certeza de que queria ser ilustradora; nós trabalhamos juntas durante muito tempo. Fizemos pinturas murais e nos encontrávamos, mais a Natália, para estudar ilustração. Num dos cursos com o Odilon, conhecemos a Daniela Galanti. Mais tarde, em 2017, formaríamos o coletivo IlhoZ, de publicações independentes, que durou pouquinho, mas foi cheio de aprendizados. Eu, Marina e Dani fizemos em 2016 um mural lindíssimo, em parceria com a Karen Dolorez, no SESC Campinas. Vejo esse trabalho como a semente do IlhoZ.

No curso de artes, meu lugar preferido era o ateliê de gravura. Eu me apaixonei pela técnica e quis aprender mais. Em 2014, eu e duas amigas, a Laís Rosário e a Amália Barrio,

ganhamos uma bolsa chamada “Aluno Artista”, com um projeto que nomeamos “Gravoar”.  

Nele, ensinávamos xilogravura no próprio espaço do ateliê da universidade. A ideia era abrir o ateliê para pessoas da comunidade e estudantes de outros cursos. Nos inspiramos muito no trabalho do Xilomóvel [um ateliê de arte itinerante que leva oficinas de xilogravura a vários lugares]. Desse projeto, acabei me direcionando para o campo das oficinas de gravura. Comecei a trabalhar com o Xilomóvel e agora continuamos com a parceria nas oficinas de gravura em embalagens longa vida. Recentemente dei meu primeiro curso na área da ilustração.

Até 2013, quando fui estudar na Universidade do Porto, em Portugal, achava que a gravura e a ilustração eram mundos separados na minha produção. Foi com a gravura em embalagens longa vida – técnica que experimentei lá pela primeira vez –, que comecei a juntar as coisas.

Nos anos iniciais da graduação ilustrei os primeiros livros: um de poesia, da Stella Zagatto Paterniani, e um romance, da Sarah Vale, para uma editora independente de Campinas, a Urutau. 

Entre 2016 e 2018, fiz dois livros infantis também de forma independente, bancados pelas escritoras: Bicharada II, da Teresa Cristina, e O aniversário mágico de Nana Buh, da Simone Viana. Recentemente ilustrei três livros para a Editora do Brasil, entre eles, Com a ponta dos dedos e os olhos do coração, da Leila Rentroia Iannone. Desde 2017 faço parte do programa de mestrado das Artes Visuais da Unicamp na área de Poéticas Visuais, orientada pela Luise Weiss, e foi dessa pesquisa que nasceu o Madalena, meu primeiro livro autoral. Minha trajetória até aqui foi bastante definida pela oportunidade de estudar na Unicamp, que, para além do curso em si, me proporcionou todos esses encontros e oportunidades.” 

 

Embalagem longa vida:

um jogo de cenários

“A gravura em embalagem longa vida tem o mesmo princípio da gravura em metal, especialmente da técnica da ponta seca, que consiste em fazer sulcos em uma superfície de metal – a qual chamamos matriz – com uma ponta afiada; depois de gravar a matriz, entintamos toda a sua extensão, “empurrando” a tinta para os sulcos gravados. Após essa etapa, limpamos a superfície da matriz para que a tinta fique armazenada apenas nos sulcos. Para imprimir, utilizamos uma prensa cilíndrica e um papel de alta gramatura úmido. O papel é colocado sobre a matriz e ambos vão para a prensa, que transfere o desenho gravado e entintado para o papel. A embalagem longa vida pode ser usada como matriz, pois possui uma camada de alumínio e de plástico, o que permite tanto a gravação quanto a limpeza da matriz. A estampa produzida por essa técnica tem características bem próprias, como por exemplo, uma suave mancha que fica no fundo da imagem impressa. Essa “sujeirinha” me interessou muito, trouxe um aspecto de imagem menos clara, como se fosse circundada por uma atmosfera de um outro tempo. A gravura, inicialmente, era utilizada como meio de reprodução de imagens. Era assim inclusive que os livros eram impressos (mas utilizando matrizes de madeira e pedra). Neste caso, a embalagem longa vida permite uma tiragem de no máximo dez ou quinze impressões, já que é um material muito delicado e a cada processo de entintagem e impressão, ele se desfaz um pouquinho.

Quando aprendi que era possível utilizar as embalagens como matriz, fiquei fascinada principalmente pela possibilidade de recortar e compor com as matrizes recortadas, algo que na gravura em metal é muito difícil. No trabalho da ilustração, esse recurso coube perfeitamente, pois além da agilidade na elaboração das matrizes, foi possível separar todos os elementos da cena em matrizes recortadas, entintar cada matriz de uma cor diferente e montá-las de maneiras diferentes, como em

um jogo de peças que podem formar diversos cenários. No caso do Madalena, a gravura fez parte diretamente da criação da história. Poder ter as matrizes separadas de cada objeto, cenário e personagem ajudou a criar o ritmo da narrativa. As matrizes podem se repetir, se sobrepor, estar ou não em uma mesma cena; assim como a memória vai se compondo por pequenos fragmentos, as ilustrações foram sendo criadas por esses fragmentos que eram as matrizes recortadas. As cenas da cozinha, por exemplo, foram todas montadas sobre a mesma matriz que continha o espaço – o desenho do armário e da porta de fundo –, mas a mesa e os alimentos mudavam em cada cena, bem como a posição e a expressão das personagens. Funciona como de fato é: em um mesmo ambiente podem acontecer muitas cenas diferentes. Acho que essa forma de construir as ilustrações deu a noção de tempo da narrativa, de algo que sempre se mantém, que é estático, enquanto outros acontecimentos de maior ou menor duração passeiam sobre aqueles. 

Quando voltei de Portugal, os artistas do Xilomóvel, hoje amigos e companheiros de ateliê, ofereceram o espaço para que eu desse uma oficina de gravura em embalagem longa vida. A partir daí, já dei alguns cursos em SESCs e todas as vezes percebo o quanto as pessoas se apaixonam e se surpreendem com essa técnica. Conheço mais pessoas que a utilizam maravilhosamente, como a Elisa Carareto, mas não vi ainda trabalhos de ilustração para livros (caso alguém que esteja lendo essa entrevista conheça, por favor me conta?!). Tenho visto cada vez mais trabalhos experimentais de ilustração por aqui; acho que a internet está ajudando a gente a se conectar com outras formas de fazer arte de uma maneira mais democrática, abrindo as leituras do que é ilustração, ou pelo menos está facilitando o acesso às imagens. Acho isso maravilhoso! Me incluo, inclusive, nessa mudança de olhar depois de conhecer outras formas de desenhar e criar imagens.”

 

Madalena e a gravura:

memória

“A Madalena é mãe da minha mãe; então este livro é um olhar para as minhas origens. Uma forma de conhecê-las melhor e de também reconhecê-las em mim. Ilustrar o livro em gravura me pareceu também uma investigação da origem da imagem impressa. A gravura é uma tecnologia muito antiga que está na origem da reprodução da imagem. Para realizá-la, existem conhecimentos que são necessários, como quais ferramentas usar e como usá-las, além de pensar a imagem invertida, pois quando ela for impressa, surgirá em outro sentido, como um carimbo; é preciso ainda saber que o papel tem uma especificidade;

saber qual tinta usar, como entintar, limpar etc.  Existe um mundo de conhecimentos técnicos que foram adquiridos na prática e que, na escolha de ilustrar com a gravura, olhei para esses conhecimentos que eu já tinha de uma forma mais aprofundada e investigativa, criando um método de gravação e impressão. Acho muito legal relacionar os tempos presentes nesse processo: o desenho que vira matriz gravada e impressa, que depois será digitalizada, virando então uma matriz digital, para ser impressa na gráfica.  As ilustrações do livro, assim como eu, também fazem um retorno à sua origem.”

 

A primeira imagem:

o tempo do livro

“A sequência da Madalena na varanda foi a primeira a nascer. A partir dela todo o livro foi criado e acho que é nela que mora o tempo do livro, que é um tempo denso, que se aprofunda na imagem. É o mesmo cenário que fica se repetindo e, aos poucos, vai mudando. Se pensarmos que a cada virar de páginas caminhamos no tempo e no espaço do livro ilustrado, essa sequência paralisa a caminhada no espaço e, por sua vez, no tempo. Ela nos leva para dentro dessa cena, quase como um prefácio que dá o tom da narrativa. Ela também mostra o processo de construção da ilustração, que nesse caso leva o tempo que a memória 

demora pra se lembrar. É aos poucos, elemento por elemento, que o cenário da história vai se formando. Essa lógica se repete durante todo o livro, mas de maneiras diferentes. Ainda nessa primeira sequência, Madalena não parece notar que está imersa nesse lugar em construção, ela se mantém, como em boa parte do livro, em seu próprio tempo, que é indicado por suas expressões e uma certa passividade frente às mudanças que vão ocorrendo durante o livro. A partir do momento que a menina chega, o ritmo se altera e a cada virar de página temos um novo espaço, uma nova ação.”

 

A narrativa:

espaço para o silêncio

“Minha avó não era silenciosa de palavras, mas tinha um olhar cheio de silêncios. Essa era uma característica que, desde o início, eu queria que o livro tivesse. Queria também que Madalena trouxesse a profundidade das relações, porque mesmo nas memórias afetivas da infância existem mistério, tristeza, melancolia. A maneira que encontrei de trazer essas sensações para a narrativa foi deixando bastante espaço para o silêncio. As imagens em preto e branco colaboram para essa sensação. As imagens de Madalena na varanda –realmente amo essa sequência! –, ao mesmo tempo que geram expectativa, mostram que para ler o livro é preciso ter a paciência daquela personagem à espera. E há um imenso silêncio ali. Nada se mexe. Parece que ela nem respira.

As suas expressões, que são quase sempre ambíguas, também ampliam essa atmosfera. Ela é a grande criadora do silêncio. O azul da menina chega para povoar o espaço, trazer barulho, agitação. Aos poucos, tanto no ritmo do livro quanto no progressivo aumento do azul nas ilustrações, o silêncio vai se transformando em um barulho distante.  

Outra característica que transforma o ritmo do livro é o fato de ele ser construído todo em páginas duplas. No livro ilustrado, o tempo se transforma em espaço, então, no caso das páginas duplas do Madalena, o espaço se amplia e, por sua vez, o tempo também. Cada dupla demora mais e se amplia, como um imenso espaço onde o silêncio passeia.”

 

A importância das cores:

representação das personagens

“A escolha das cores começou em Portugal, quando aprendi a usar a embalagem longa vida como matriz para gravura. Como as matrizes são completamente entintadas com uma mesma tinta, passei a criar ilustrações com uma palheta limitada de cores. Na época, escolhi exatamente o azul e o laranja que usei no Madalena, porque estava criando o Outono, o primeiro trabalho que fiz com essa técnica e que nunca foi publicado. Passei a me relacionar com essas cores desde então e percebo que, a cada trabalho, elas ganham novas dimensões.

Inicialmente a escolha da cor de cada elemento da narrativa do Madalena não foi consciente. Só sabia que queria o mundo da avó em preto e branco para trazer a atmosfera das fotos e filmes antigos, como um recurso de interpretação de que ali entramos no tempo da memória. A menina naturalmente foi pintada em azul.

Quando cheguei no final do storyboard e reconheci que o final da história era o tempo presente, escolhi o laranja. Depois, em um artigo que escrevi durante o mestrado para uma disciplina de cores, fui pesquisar sobre esses tons e descobri que tinha tudo a ver! O azul é associado a melancolia, calma, distância, saudades, enquanto o laranja é a presença vibrante, a alegria. Além disso, são cores complementares. Fiquei feliz com essa descoberta! 

Na narrativa do Madalena a cor é quase um personagem, pois ela assume a representação de cada mundo. A menina é inteira azul, e à medida em que ela e a avó convivem, o seu azul vai impregnando os objetos da avó e, no final, a própria avó. Já no tempo presente, todo laranja, o azul faz a ponte do que se manteve daquelas lembranças.” 

 

Uma história de mulheres:

como existir no mundo

“Inicialmente não foi uma escolha nem um desejo. Fui criada pela minha mãe e, eventualmente, pela minha avó, que por sua vez perdeu meu avô bem cedo e cuidou dos seus filhos sozinha. Essas memórias do cotidiano da infância, ainda mais essas de quando a Vó Madalena morou com a gente, são povoadas por essas figuras femininas, avó e mãe. São minhas primeiras referências de como existir no mundo, de resiliência, de força. Quando, já adulta, conheci o feminismo, passei a olhar pra essa história de uma forma mais crítica, percebi que falar sobre mulheres a partir da voz de uma mulher é necessário. Tenho, por parte de mãe, duas irmãs mais 

novas, a Maria Luísa e a Sofia (inclusive, dediquei o livro pra elas e pra minha mãe, Beatriz) e elas me ensinam demais.  Sempre conversamos sobre questões de gênero, compartilhamos situações em que sofremos com o machismo e fica cada vez mais evidente que a estrutura atual da sociedade precisa mudar. Além disso, namoro uma mulher, a Lívia, minha companheira com quem divido muitos aprendizados. Por um presente da vida, sou rodeada de pessoas incríveis, e de muitas mulheres incríveis. Ainda estou aprendendo a olhar e a falar sobre tudo isso, mas sempre que tenho a oportunidade de trabalhar, falar sobre ou dar voz a uma mulher, eu aproveito.” 

 

O livro preferido:

a árvore vermelha

“Eu sempre tenho dificuldade em responder quais são as minhas maiores influências. Acho que são tantas! E cada uma de uma maneira diferente, refletindo uma época diferente. Tenho um livro preferido, que é A árvore vermelha, do Shaun Tan. Gosto muito do trabalho desse autor. No processo de criação do Madalena conheci outro livro que me transformou, me tocou tanto emocional quanto formalmente, com o livro incrível The forest [A floresta], de Ricardo Bozzi, Valerio Vidal e Violeta Lópiz. E há aqueles e aquelas que admiro desde sempre, como Guignard, Chagall, Remedios Varo, Frida - recentemente ilustrei um livro sobre ela e descobri coisas incríveis

em suas pinturas.”

Capa do livro A árvore vermelha.

 

A autora e os outros:

opiniões e críticas

“Por ter sido um projeto de mestrado, foi necessário e importante dividir a leitura de Madalena com minha orientadora Luise Weiss e com muitos amigos e amigas. E foi difícil compartilhar o processo e ouvir as críticas. A gente se apega muito à ideia que fazemos do nosso trabalho. Lá de dentro tudo parece tão perfeito. Foi um processo tão longo e uma entrega tão grande até chegar ali... expor para alguém é correr o risco de que tudo aquilo se desfaça. Mas, foi fundamental. Com o boneco já montado, redesenhei algumas das ilustrações e deixei de uma forma que as pessoas já pudessem ter uma ideia melhor do que seria o livro inteiro, das ilustrações, do texto e da dimensão do objeto, bem como do ritmo da narrativa, elementos estruturais do livro ilustrado. Tive olhares muito atentos de todos, e cada pessoa trouxe reações que foram me indicando o caminho. A Natasha, uma amiga da área da Literatura e Letras, por exemplo, me falou algo que mudou tudo! Disse que entendia que as memórias da avó ficassem com a menina, mas sentia falta da troca, de que eu mostrasse de alguma forma que algo da menina também ficaria com a avó. É tão claro, né?! Toda relação tem alguma troca! Foi difícil ouvir e retomar, mergulhar de novo no livro, mas foi daí que cheguei à solução dos objetos irem,

aos poucos, incorporando a cor da menina, deixando a presença dela na casa da avó e esse é um dos elementos da narrativa que mais gosto no livro agora. A Dani Galanti me ajudou a ver que tinha mais texto do que o necessário, e que alguns estavam repetindo a imagem, tirando a sua potência. Depois do nosso encontro o livro ficou cheio dos silêncios que hoje é também algo que amo. E quando ele estava praticamente fechado, mostrei o boneco para o Odilon, que me devolveu com algumas perguntas que foram importantes para eu resolver no processo de criação das gravuras, em relação ao uso da cor. Ele me perguntou se era realmente necessário o uso das cores, principalmente do laranja no final. O seu comentário me fez repensar a forma como eu acrescentaria o laranja e alguns outros elementos da gravura. 

Criar um livro ilustrado é estar com toda a feitura do livro em mãos; é um universo muito grande e complexo em que uma linguagem alimenta e é alimentada pela outra, a imagem, o texto e o objeto, e precisamos de olhares de fora para conseguir enxergar melhor toda essa imensidão sem focar muito em uma ou outra linguagem e correr o risco de perder a potência de todas elas juntas.”

 

Financiamento coletivo e editora:

a viabilização

“Inicialmente tinha a intenção de que o livro fosse publicado e lido ainda no período do mestrado para dar mais sustentação à pesquisa. E uma certa ansiedade de ver logo o livro no mundo, sendo lido por pessoas de todas as idades, ver suas reações. Agora, já na finalização junto à editora, percebo que, de fato, todo esse processo de edição do livro e a possibilidade de tê-lo publicado antes de terminar a dissertação é fundamental para ter a dimensão desse projeto: sair do processo, ter o livro acabado e sendo lido, para ver o processo. Sem isso, corro o risco de ficar navegando em torno de perguntas sem fim, que só a experiência de fato pode responder. Além disso, o processo criativo tem muitas escolhas feitas pelo inconsciente, que, só mais tarde conseguimos trazer à consciência. Da mesma forma que mostrar o boneco para as pessoas me mostrou caminhos, acho que a leitura do livro também vai me ajudar a vê-lo de outras formas. O financiamento coletivo pareceu ser a melhor forma de viabilizar essa publicação. Eu não

tinha expectativas de enviar o livro para nenhuma editora, tanto pela pressa quanto, e principalmente, pelo desejo de que ele fosse publicado exatamente como eu planejava em relação ao formato, capa dura, papel etc. Eu também desejava ter mais liberdade na forma como os exemplares seriam distribuídos, queria participar de perto. O financiamento coletivo foi então perfeito: além de funcionar como uma pré-venda do livro, também movimentou uma ideia política, de que juntos podemos, sabe? Eu fiquei muito impressionada e feliz com a repercussão da campanha e senti muito forte essa potência do coletivo.

 

A Livros da Matriz foi um presente. Além de me dar esse espaço para participar do processo, senti que a editora ama o livro e quer publicá-lo da melhor forma, com muito afeto. Sei que nem sempre a gente pode se guiar por esse sonho de trabalhar no amor, rsrs, mas o Madalena tinha que ser assim.”

 

A publicação:

a necessidade de participar de todo o processo.

“Acho maravilhoso que esse mercado dos independentes esteja crescendo, que as pessoas possam criar, publicar por conta própria, sem precisar da “validação” de uma editora. Mas não é nada fácil. As funções ficam todas centralizadas no artista – o que é maravilhoso, mas também muito trabalhoso. Acho que contar com o apoio de uma editora difere do mercado independente já no início, no espaço para publicar, que é bastante restrito se pensarmos na quantidade de pessoas que 

produzem livros. Agora, nessa parceria com a Livros da Matriz, estou sentindo a diferença: é muito bom poder dividir as tarefas, ter diversos olhares, todos cuidando para que o livro saia na sua melhor forma. Eu tive a sorte de trabalhar com uma editora que pensa parecido comigo, em quem confio completamente e que permite que eu participe de todo o processo. Acho que consegui o melhor dos mundos! Sei que nem sempre vai ser assim.”

Natália Gregorini nasceu em Vilhena, em Rondônia, e já morou em vários lugares até chegar em Campinas, SP, onde fez graduação em Artes Visuais na Unicamp. Ainda durante a graduação cursou um ano na Universidade do Porto, em Portugal, onde estudou ilustração e técnicas de impressão. Lá aprendeu que as embalagens longa vida poderiam ser matrizes para gravura e que essa técnica não só servia para ilustrar como possibilitava a criação de narrativas de uma forma muito diferente, pois as matrizes desse tipo de embalagem poderiam ser recortadas e montadas, como num jogo de contar e recontar histórias. Atualmente faz mestrado no Instituto de Artes da Unicamp, sob a orientação da professora Luise Weiss. Sua pesquisa aborda o processo criativo do seu primeiro livro ilustrado, Madalena.

Crédito das imagens:

Natália Gregorini, Ingrid Ospina e Danilo Perillo

Lugar de Ler ∞

Rua Pedro Ortiz,94

Vila Madalena - São Paulo

lugardeler@gmail.com

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