Odilon Moraes

Uma breve história do livro ilustrado

Ao apresentar Odilon Moraes ao público de uma palestra que estava sendo realizada em Bogotá, na Colômbia, alguns anos atrás, a bibliotecária, autora e editora Silvia Castrillón o identificou como arquiteto. A primeira reação dele foi negar essa informação, justificando que sua graduação em Arquitetura - concluída na FAU-USP - tinha sido um equívoco, algo que, na verdade, ele considerava um desvio em sua trajetória em direção ao livro ilustrado. “Depois de explicar meu processo de criação passo a passo para a plateia, a Silvia pegou meu microfone e disse, sorrindo, ’Aceite Odilon. Você é um arquiteto’”, lembra.

Arquivo pessoal

A partir daí ele começou a perceber mais nitidamente a influência de sua formação na maneira de construir os livros. Tijolo a tijolo. Palavras, imagens e objeto. “Gosto de conduzir uma trajetória dentro do livro como os arquitetos propõem que caminhemos por seus espaços. Faço bonecos como eles fazem maquetes: para melhor compreender como se relacionar com o objeto”, admite.

Quanto à pintura, aprendeu com seu pai. “A pintura foi o modo que encontrei de me comunicar com o mundo e, em especial, com meu pai”, diz. Em sua memória, o pai era um homem muito silencioso - “o que não necessariamente corresponde a como os outros o veem” -, e foi nesse espaço de silêncios que eles sempre se entenderam. “Meu pai tinha que ser compreendido naquilo que ele não dizia mas mostrava nos detalhes. Pintar ao seu lado desde pequeno foi nossa maneira de conversar sem palavras”, diz.

Pai de três filhos - de seu casamento com a escritora Carolina Moreyra -, Odilon também identifica modos diferentes de dialogar com cada um deles. “Não sei dizer do que vão se lembrar no futuro, mas acredito que algumas de suas memórias deverão passar pelos desenhos, pelos jogos com palavras, pela ficção e, espero, pelo livro”

Da época em que pintava com o pai para os dias de hoje, Odilon percebe o quanto se distanciou da pintura. “Enxerguei a diferença da imagem de uma pintura fixa para a de uma série de imagens em sequência, sugerindo a passagem do tempo. Acho que me tornei ilustrador na medida em que me afastei da pintura, por mais que isso possa parecer paradoxal”, reflete.

Autor dos livros Pedro e a Lua, A Princesinha Medrosa, Rosa, Olavo, entre outros, Odilon tornou-se hoje uma referência nacional em livros ilustrados. Ele conta que sua relação com esse gênero começou, como na maioria das vezes acontece com ilustradores, de maneira natural, distraidamente. “Fazemos livros ilustrados quando, sem perceber, damos à imagem um papel diferente dentro da narrativa. Fazemos livros ilustrados quando queremos usar as imagens para testar os limites das palavras. Quando, ao invés de respeitar um texto, elas passam a desafiá-lo. Fazemos livros ilustrados, sem saber, quando somos convidados a propor uma sequência de imagens ao longo das páginas e elas, casualmente, começam a querer se interligar e criar, com ou sem palavras, uma história”, diz.

Foi esse jogo com a ilustração, de perceber uma outra possibilidade de expressão, que o levou a estudar e conhecer mais profundamente os livros ilustrados. “Descobri que estudiosos do mundo todo  já haviam tentado dar conta dessa forma de escrita híbrida e que, cada um à sua maneira, compreendia o centro, as fronteiras e as regras desse novo território dentro da literatura chamado livro ilustrado”, conta.

Além dos seus livros autorais, ele e Carolina publicaram três livros juntos: Lá e Aqui, O Guarda-chuva do Vovô e Lulu e o urso. “Na parceria com a Carolina há uma coisa fundamental: o seu talento de escritora. Além disso, ela domina o mecanismo do livro ilustrado, entende de ritmo e do jogo de palavras e imagens, pois tem formação em cinema. Carolina tem a noção da diferença entre escrever com palavras e quando, em um livro ilustrado, as palavras fazem parte de um todo maior que deve ser planejado. Isso nos abre um vasto campo para conversas na hora da criação. Como somos casados, esse diálogo é diário. Afinamos nossos livros conjuntamente, não necessariamente sem conflitos, e escolhemos juntos o que se mostra e o que se esconde com as palavras e as imagens”. diz.

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